Campo Grande (MS),

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    14/09/2018

    CRÔNICA| Eu venci na vida, logo, por que ninguém faz como eu?

    Por: Nilson Lattari*
    O Esclarecimento, uma melhor forma de traduzir o Iluminismo, nas palavras de Adorno e Horkheimer, desenvolveu para o mundo moderno uma lógica que favorece aquele que é mais capaz, ou supostamente capaz, aquele que é mais racional, e culmina, no nosso tempo, na figura do vencedor. 

    Volto à velha polêmica sobre o que é ser um vencedor. O mundo capitalista exige um tipo de personagem. Aquele que se destaca nos moldes do mercado é um vencedor, ou seja, se o mundo capitalista favorecesse poetas, poetas seriam celebridades e encheriam estádios, portanto, tudo é uma questão de lógica no mundo onde convivemos. Valor, estrutura de valor, é algo relativo. 

    Para justificar a trajetória de vencedor, um dos argumentos utilizados além do custo/benefício, vestir a camisa, trabalhar em equipe, dísticos que servem de pano de fundo para “incentivar” o aparecimento de vencedores, é aquele de que fiz a minha vida por mim mesmo. 

    É comum a argumentação de apontar uma meritocracia relativa, quando instigamos, confrontamos contra o “perdedor”, o fato de muitas vezes termos vindo de uma vida “difícil”, de família pobre, etc. etc., de onde nos erguemos, estudamos, trabalhamos, contra adversidades e outras coisas vitimizantes. 

    Cada experiência e trajetória de vida é individualizada. Ninguém repete a experiência do outro, porque ela está permeada por oportunidades, limitações ou ampliações geográficas, sociais, e neste mister a família tem um papel importantíssimo, quanto à estrutura e amparo financeiro e amoroso, e por aí vai a limitação intelectual, condições físicas, etc. 

    Assim sendo, podemos dizer, como forma de argumentação, a pergunta: Defina a sua vida difícil. 

    Salvo raras situações, na maioria das vezes, as histórias de “vencedores” possuem alguma estrutura familiar que ampare, desde a ajuda de familiares como pais, avós, tios, primos, irmãos, até mesmo amigos bem posicionados que proporcionam ao ascendente social uma perspectiva qualquer, além de seus atributos entrarem como componentes principais, desde a formação do caráter, capacidade intelectual, gênero, dentro de uma sociedade machista, (e por que não homofóbica), de cor, se a supremacia é branca, aspecto físico e outros. 

    O exemplo mais interessante é colocar uma estrutura “vencedora”, com um personagem diferente. Um preto, dentro de uma estrutura familiar condizente, de formação intelectual de grau elevado, mas morador em uma periferia, comunidade, envolvido pela violência, ou qualquer outra colocação, as barreiras se apresentam. 

    Bater no peito e dizer em alto e bom som que se é vencedor, dentro de condições favoráveis, tanto interna quanto externamente, é, sobretudo, um ato de vergonha, de soberba, de prepotência. Não é o caso de ganhar uma estátua em praça pública, e o que o capitalismo gosta: o servir de exemplo. Afinal, tendo todas as condições para desenvolver potenciais, o sujeito, nestas condições, não faz nada mais do que sua obrigação. Afinal, se ganhou asas, cumpre aprender a voar, e a se equilibrar no voo. Em vez de receber os parabéns por fazer o óbvio, o sujeito, que viveu e “venceu” nestas condições, deveria compreender as dificuldades do outro, e entender, muitas vezes, que nas suas condições, o outro talvez voasse mais alto. Humildade, antes de mais nada. E as manifestações de ódio, de manter diferenças, de preconceitos, é um sinal de que o egoísmo ancorou em personagem que não faz jus ao seu destino. 

    Até porque o fato de alguém ter uma trajetória vencedora deve compreender que ela se construiu sobre o fracasso de muitos outros. Não é difícil imaginar que em uma sociedade igualitária, quando um percentual imenso de jovens não tem acesso a uma educação de qualidade, ou sobrevive em condições sociais e emocionais extremas, inserido ombro a ombro, aumentaria a concorrência em muitos graus, e, possivelmente, os vencedores de hoje não seriam tão vencedores assim. 

    Ver algumas pessoas, inseridas neste contexto, criticarem as políticas sociais que tentam garantir acesso a despossuídos, taparem os ouvidos e os olhos ignorando a luta de professores por melhores condições de trabalho e salário, vendo o descrédito em que naufraga a escola pública, considero um paradoxo. Afinal, quem é o bam bam bam na vida não deve temer concorrência.



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