![]() |
| Divulgação |
Mais uma tarde de domingo inicia e logo o burburinho começa. São pessoas de todas as idades e de vários bairros da cidade que vão chegando. Algumas aproveitam a sombra da árvore ou algum banco livre para namorar, outras já trazem toda a família para um gostoso piquenique ou simplesmente para levarem as crianças no parquinho. Tem também os esportistas que aproveitam a tarde ensolarada para caminhar, correr, andar de bicicleta ou skate.
Na entrada do parque, as pessoas se misturam em uma roda de tereré ou apenas para apreciar o findar do dia envolto por uma profusão de aromas. A diversidade de opções atende a todos os paladares, que vai desde a tão famosa água de coco, passando pela pipoca com queijo, pipoca doce, churros, cachorro quente e até tapioca.
Assim costuma ser o final de semana de muitas famílias que frequentam um dos locais considerados um dos cartões-postais de Campo Grande: o Parque das Nações Indígenas. De segunda a sexta passam diariamente pelo local de 200 a 300 pessoas. Nos finais de semana esse número chega até a 2.000 pessoas. Além disso, nos meses de dezembro e janeiro o número de frequentadores aumenta de 30 a 40%, segundo a administração do parque.
Os bosques, com árvores do cerrado dão o charme ao parque. Os pomares, com espécies que dão frutos no ano todo, fazem a alegria dos frequentadores.
Mas nem sempre o parque foi assim, tão arborizado. Quando o Parque das Nações Indígenas começou a funcionar havia somente algumas mangueiras, abacateiras e pés de jaca. O comerciante Cláudio Roberto Flores Valente, que trabalha há cerca de 22 anos vendendo água de coco em frente ao parque, lembra muito bem dessa época “Antigamente, o parque era muito simples, só tinha o lago e a pista e hoje em dia tem muitas árvores plantadas e existem vários ipês que florescem nas três estações e constitui uma grande atração e orgulho para o campo-grandense”.
O que muita gente desconhece é que a maior parte dessas árvores, que encanta os frequentadores do parque, foram fruto de um projeto de ressocialização com os presos do regime semiaberto, desenvolvido pelo Conselho da Comunidade de Campo Grande. Nereu Rios, secretário-executivo do Conselho, lembra que quando o projeto começou enfrentou muita resistência, pois muitas pessoas diziam que eles não conseguiriam acabar com os cupins e formigas existentes e que o parque era só aterro. Porém, o tempo mostrou o contrário e hoje o parque conta com mais de 35 mil árvores, sendo mais de 60 espécies nativas. Segundo ele, o exemplo de limpeza e conservação do Parque das Nações Indígenas poderia ser estendido para muitos outros parques da Capital, por meio do projeto do Conselho.
Inicialmente, o projeto contava com 32 reeducandos, mas atualmente esse número foi reduzido para 22. A rotina da maior parte deles começa bem cedo, no início da manhã, o ônibus sai da Unidade Prisional semiaberta Agroindustrial da Gameleira em direção ao parque e depois do café da manhã os reeducandos que trabalham no parque se dividem em diversas frentes de trabalho, alguns ficam responsáveis pela limpeza e conservação das pistas, outra turma trabalha com as roçadeiras, outra fica responsável pela portaria, além do tratorista.
Com exceção daqueles que trabalham na portaria, que possuem um horário diferenciado, em razão do funcionamento do parque, e, ainda, do reeducando responsável pela supervisão das tarefas, a maioria trabalha de segunda a sexta, das 7h até as 13h. Depois do término do expediente, o ônibus leva os detentos de volta para a Gameleira.
“É interessante em termos de quem utiliza os serviços prestados pelos reeducandos, visto que o custo é menor e, por outro lado, eles não permanecem o tempo todo fechado no presídio, sem fazer nada, ou seja, estão fazendo algo de útil e no final do mês recebem ainda uma quantia para poder ajudar a família,” afirmou Odilon Luiz Rigo, gestor do Parque das Nações Indígenas, sobre a importância do projeto.
Para Nereu Rios, secretário-executivo do Conselho da comunidade de Campo Grande, todos os lados ganham com o projeto, “Ganha o reeducando pois passa a ter um trabalho laboral, e começa a perceber o caminho correto e que roubar não adianta, traficar não adianta; ganha a sociedade pois mais um trabalhando é menos um delinquindo e ganha também o empresário/órgão público, pois o regimento da Lei 7210/1984 do Código Penal, desobriga a contratação no regime celetista, com isso inexiste alguns encargos trabalhistas para quem contrata a mão de obra dos reeducandos como pagamento de férias, 13º salário, etc.”
Para o reeducando a cada três dias trabalhados, abate-se um dia no cumprimento de pena, além disso eles recebem um salário-mínimo (descontado 10% que vai para a conta judicial) e mais uma cesta básica para poderem ajudar no sustento da família. O reeducando Matheus da Silva de Almeida Lima participa do projeto há quase três anos e afirma que o projeto é muito importante, pois abre as portas para eles, já que é muito difícil conseguir emprego quando passam para o regime semiaberto. Indagado sobre o futuro, o reeducando disse que o projeto ajudou-o a ter mais responsabilidade e que pretende continuar trabalhando e retomar a faculdade de educação física que estava cursando.
Saiba Mais – Sob a presidência do juiz Albino Coimbra Neto, titular da 2ª Vara de Execução Penal de Campo Grande, o Conselho da Comunidade de Campo Grande iniciou suas atividades em 1999 com o objetivo de inserir os internos no mercado de trabalho por meio de parcerias com empresas e órgãos públicos.
Além do Tribunal de Justiça que celebrou contrato para a ressocialização de internos na Capital, o Conselho conta atualmente com mais de 20 empresas e órgãos parceiros. “Hoje, graças a Deus, nós não vamos mais até os empresários, pelo contrário, eles que nos procuram e nós temos mais de 1000 pessoas que estão cumprindo pena trabalhando,” afirmou Nereu Rios, secretário-executivo do Conselho.
Rios apontou também que o sucesso do projeto deve-se ao trabalho de diversas pessoas ligadas a área administrativa de diversos órgãos públicos parceiros como o Senhor Odilon Luiz Rigo, gestor do Parque das Nações Indígenas, que não recebe a mais por isso e que mesmo assim supervisiona e cuida do trabalho dos reeducandos no parque.
Segundo dados do Conselho da Comunidade, a reincidência no crime é muito pequena, de 8% a 10%, sendo que 90% deles conseguem dar um novo rumo em suas vidas. Um dos exemplos constantes no vídeo do Conselho é da ex-reeducanda Lázara Martins dos Santos, reincidente 3 vezes, muitos não acreditavam na sua recuperação, porém ela começou a trabalhar no Parque das Nações Indígenas pelo projeto do Conselho e como trabalhava em shows no parque e nos finais de semana, ela conseguia receber até dois salários-mínimos.
Com o dinheiro, ela foi comprando os materiais e maquinário necessários e pagando as prestações, pois tinha conhecimento na área têxtil e depois que saiu do presídio ela conseguiu abrir sua empresa de confecções e atualmente presta serviços para outras empresas e confecciona os uniformes do Conselho.
O Conselho mantém um termo de cooperação mútua com a Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário (Agepen), por meio do Patronato Penitenciário e antes de serem escolhidos, passam por análise jurídica, psicológica e social e ainda pelo crivo do Conselho da Comunidade e permanecem em caráter de experiência havendo substituição caso não se adéquem às normas estabelecidas.
O comerciante que trabalha em frente ao parque, Cláudio Roberto Flores Valente, conhecedor do projeto, diz que o contato com a sociedade não só permite a ressocialização deles como também possibilita que eles se tornem um cidadão do bem.
Ao ficar sabendo do projeto o técnico em mecânica industrial, João Carlos Alves de Oliveira, considerou o projeto muito importante pois além de representar uma ressocialização, disse que o trabalho dos reeducandos colabora com a limpeza do parque, já que algumas pessoas que frequentam o local acabam deixando copos descartáveis espalhados. Ele veio a pouco tempo de Nova Mutum-MT, e aproveita o domingo para retornar pela terceira vez ao Parque das Nações Indígenas, levando a esposa, filho e a cunhada que é do Maranhão e que veio conhecer o parque.
E assim, entre risos, gargalhadas e vozes de crianças, o domingo se despede em um belíssimo pôr de sol que enaltece ainda mais a beleza do Parque das Nações Indígenas, dando novas colorações ao lago e árvores, momento em que as palavras de Senhor Nereu parecem ressoar: “Se existe gente boa aqui fora, porque não pode existir gente boa dentro dos presídios?”
Economia – A manutenção promovida com o serviço dos reeducandos representa, entre outras coisas, uma economia para os cofres públicos. Uma conta simples, usando preços de mercado, demonstra que os 119 hectares do parque custaria 128 mil reais por mês, mas com os presos isso custa 49 mil reais por mês. Assim a economia representa um milhão por ano para o Parque das Nações Indígenas.
Funciona – Outra questão destacada com estes serviços em Campo Grande é o fato do regime semiaberto existe e se fazer eficiente. O destaque é para a reincidência no crime, que fica entre 8% e 10%, assim, 90% do que se beneficiam com esta progressão de regime conseguem dar um novo rumo em suas vidas.
Fonte: ASSECOM/TJMS
