Em 90% dos casos, morte é evitável pois a pessoa dá sinais de que desistiu de viver
![]() |
| (Foto: Reprodução/Internet) |
O ser humano está em sofrimento. Prova disso é o assustador número de pessoas que tentam acabar com a própria vida. Em Campo Grande, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) registrou 598 tentativas de suicídio até o mês de outubro de 2015. No ano passado, foram registrados 53 mortes e 750 tentativas.
“Cada ano tem um crescimento tanto nas tentativas quanto nos suicídios. São dados que podem ser maiores, pois muitos familiares têm vergonha de dizer que a pessoa se matou e não registram o suicídio. O suicídio em 90% dos casos é evitável, não é uma morte que a pessoa não demonstra sinais. 90% das pessoas evidenciam sinais, em ações ou falas, alertando sobre a possibilidade de suicídio”, diz a enfermeira do Núcleo de Prevenção de Violências, Laura Maria Souza de Linhares.
Terceira causa de morte em 2014 dentre as causas externas, o suicídio foi debatido nesta quarta-feira, 18 de novembro durante audiência pública na Câmara Municipal de Campo Grande. Conforme dados divulgados no evento, a tentativa de suicídio é a 3ª violência mais registrada.
“Ou seja, ser humano está em sofrimento, este é um problema complexo. A principal faixa etária que pratica o suicídio é o jovem de 15 a 34 anos. O setor de saúde desempenha papel fundamental nessa prevenção. Quando a pessoa tenta o suicídio ela chega a Unidade de Saúde 24 horas, que tem um assistente social, que é um grande diferencial, pois não é comum nos outros municípios, que faz o acolhimento do paciente e seus familiares”, cita.
Conforme Laura Maria, o paciente é encaminhado para a rede Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). São seis CAPS em Campo Grande, sendo dois 24 horas. “Este é um grave problema de saúde pública, com uma demanda bastante elevada, às vezes tem uma fila, mas elas são priorizadas no atendimento”, afirmou.
Número maior - O professor e pesquisador do Hospital Universitário e capelão do Corpo de Bombeiros, Edílson dos Reis revelou que “quando um caso de suicídio é notificado, quatro outros não são, então esse número de 598 suicídios em 2015 é muito maior.
“Na UFMS, temos condições de capacitar os professores a trabalharem com a prevenção ao suicídio. Precisamos trazer isso como pauta. Temos que marcar audiência com a ACP para começarmos esse discurso com os professores (...) Fazemos um Curso de Prevenção de Suicídio, que é o primeiro do Brasil. Estamos criando o laboratório de luto, para trabalharmos essa questão de familiares que perdem pessoas para o suicídio”, disse.
Vale ressaltar, que os vereadores de Campo Grande aprovaram a Lei nº 5.613/15, de autoria do vereador Carlos Augusto Borges, o Carlão, que dispõe sobre a implantação de medidas de prevenção ao suicídio nas escolas municipais de Campo Grande MS, a qual foi sancionada e publicada no Diário Oficial no dia 30 de setembro deste ano.
Tema tabu - A assistente social do Setor Psicossocial de Apoio ao Servidor Penitenciário, Maria Roseneuza dos Santos salienta que “o suicídio é assunto delicado, é um tabu, um tema permeado pelo preconceito". A assistente cita que no âmbito da segurança pública o suicídio é o ápice, o ponto culminante da depressão de forma trágica.
"Lidamos com a depressão de forma errada e muito preconceituosa. A gente protege, a depressão ou é frescura ou não é coisa de homem. Com isso estamos suscitando para que tudo isso aconteça. Este é um problema da nova geração, a geração do tudo pronto, que não está disposta a construir e com a falta do construir, o vazio se instala, culminando com o suicídio. Temos que romper esse preconceito, é uma coisa que deve ser levada a sério.”
Para o coordenador de divulgação do Grupo Amor Vida-GAV (antigo CVV), Roberto Sinai, o suicídio é um problema de saúde pública. "Atendemos diuturnamente pessoas que nos ligam e não julgamos, não direcionamos, não aconselhamos. Ela fala sobre aquilo que incomoda. Não temos, nem somos profissionais da saúde mental, somos voluntários, com espírito de amor ao próximo, para oferecer o melhor que temos. Falar é a melhor opção, pois uma dor não compartilhada dói mais”, afirmou
O Tenente Ivanaldo Ferreira dos Santos, que é capelão evangélico destacou que “o Exército preocupado com esse índice crescente de suicídio está implementando a nível nacional um projeto de valorização da vida para combate e prevenção do suicídio, com uma equipe multidisciplinar composta de psicólogos, psiquiatras, capelães militares, visando diminuir, evitar, conscientizar e orientar os militares para reduzir o índice alto de suicídio em toda sociedade”, destacou.
O psicólogo da Coordenadoria de Atendimento Psicossocial da Polícia Civil/CEAPOC/MS, Carlos Afonso Marcondes Medeiros atua há mais de 30 anos na profissão de psicólogo e afirmou que já conseguiu evitar que muitas pessoas praticassem o suicídio.
“Estamos fazendo alguns trabalhos na Polícia Civil que poderiam ser ampliados para a sociedade. Temos o Projeto ‘Tira Solidário’, que trata do bom amigo, para que a corporação observe algum sinal de transtorno mental, de adoecimento, de sofrimento para fazermos uma abordagem, principalmente aqueles policiais que se acham super-homem. O policial tem um agravante: ele usa uma arma, ele pode usar essa arma contra si mesmo", explica.
Segundo Carlos Afonso, ouvir é muito importante, abordar a família, pois quem pode ajudar uma pessoa que está em sofrimento mental e ideação suicida, é quem está ao seu lado. "Este grupo está atento, junto com os colegas observando, nos passando informação de que tem uma pessoa que não está bem”, disse. "Temos que reunir os técnicos e fazer a rede, pois o trabalho de rede é fundamental para fazer a prevenção", completa.
Fonte: DD
Link original: http://www.diariodigital.com.br/geral/na-capital-598-pessoas-tentaram-suicidio/137701/
