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    30/10/2015

    Ponta Porã Linha do Tempo - Causos e lendas da fronteira. O Pé de Garrafa a fera de Sanja Moroty.

    Quem nunca ouviu um causo, uma estória bem contada cheia de fatos cercados de mistérios e com uma pitada de situações sobrenaturais sem explicação na sua infância, por aqueles que as vivenciaram ou cresceram escutando esses causos e lendas, de muitos personagens que um dia passaram por esta essa fronteira, marcada por acontecimentos épicos, já a muito esquecido, mas ainda vivo na lembrança de muitos fronteiriços que viveram ou cresceram ouvindo essas estórias, que hoje são saudosos da vida simples que ficaram gravadas em sua memória. 

    Todo causo e lenda surgiu de uma história, baseados em fatos, muitas vezes vividos ou presenciados por alguém, que quando contado em roda de amigos ganha uma pitada de emoção, não que já não tenha mais essa maneira interiorana de se contar um bom causo e que torna as histórias mais prazerosas de se ouvir.

    Segundo pesquisadores e fontes educacionais e culturas. “O pé de garrafa é um dos mitos folclóricos mais conhecidos da fronteira de Mato Grosso do Sul, descrito pelos populares através dos tempos como um bicho homem, cujo corpo é coberto de pelos, exceto ao redor do umbigo, dando a impressão de ter coloração branca e podendo ser o ponto vulnerável do tal mostro. 

    Alguns afirmam que tem cara de cavalo com um só olho no meio da testa, uns juram que tem cara de gorila e, outro cara de cachorro, o fato é que a grande maioria descreve o bicho como possuidor de apenas um pé (embora poucos digam que ele tem dois pés). “No formato de um fundo de garrafa, este fato faz com que se locomova aos pulos, como se fosse um canguru, deixando no chão, um rastro com marca de fundo de garrafa, solta forte assobios para comunicar que é dono do território, podendo até hipnotizar aquele que se atreve a encara-lo. A vitima é arrastada para sua caverna ou buraco onde é devorada”. Fonte site educamor.net.

    Foto Arquivo da Família Rodrigues (Francisco e Miguel Rodrigues in memoriam). Acervo de Carlos Morel. Imagem na fazenda “Emboscada” de Francisco e Miguel Rodrigues, ambos aparecem na foto juntamente com dois amigos de termo, inspecionando a plantação de erva mate. Década de 30.

    Quando escutei pela primeira vez essa estória do “pé de garrafa” confesso que fiquei com certo receio de algum dia me deparar com essa criatura, mesmo assim, fui à busca de um causo que aconteceu em nossa fronteira, há muitas décadas atrás em uma região fronteiriça.

    A região rural de nossa fronteira nesses tempos era cercada de muitas matas diferentes dos dias atuais, eram poucas as serralherias e a vida do campo era simples onde os trabalhadores nesse período histórico utilizava a luz natural do sol e da lua para realizar seus afazeres diários no campo, criando seus gados, galinhas, porcos entre outros animais para seu consumo pessoal e comercio dos mesmos, alguns cultivavam a erva mate outros o café.

    Arquivo pessoal de Nilza Terezinha: Foto década de 40. Acervo de seu pai Itrio Araújo dos Santos conhecido como (cabo Itrio), que serviu no 11º Regimento de Cavalaria na cidade de Ponta Porã na década de 40, Cabo Itrio era um admirador da arte de tirar fotos, desta forma ao longo dos anos ele agregou ao seu acervo centenas de ricas imagens da região de fronteira. Esta imagem da fazenda de criação de gado na região do Maemi próximo a Rincão de Julho.

    Ponta Porã nesse período histórico de seu desenvolvimento se destinava principalmente como ponto de parada dos tropeiros e seus comboios de carretas de bois que seguiam até o porto de Conceição, muitos viajantes chegavam e partiam desta região, que tinha seu ritmo comercial e a população fronteiriça seguia sua vida normalmente, mas hora ou outra aconteciam os fatos que muitos se arrepiavam com tais histórias que eram contadas em roda de amigos ou de viajantes em pontos de paradas onde um alertava o outro dos possíveis perigos que poderia enfrentar, dentre eles o “pé de garrafa” era um bicho temido nesta região em outros tempos trazendo certo medo para quem tinha que enfrentar as longas viagens e as travessias pelos campos e matas lugar de morada do temido “pé de garrafa”. 

    Foto de 1919 de Luiz Alfredo M. Magalhães. Publicada no livro um Homem de Seu Tempo, uma biografia de Aral Moreira, “intensa movimentação das carretas ervateiras”. Isso se deu no início do século na região fronteiriça, onde muitos desbravadores oriundos das mais diversas localidades e regiões do Brasil, principalmente do Sul do país, iniciaram seus cultivos e criações, nas estancias (fazendas) que estavam se formando na fronteira.

    Certa vez em uma estancia da região dois jovens que lá moravam se preparavam para ir ao um baile que aconteceria em uma fazenda não muito perto, mas naqueles tempos era desta maneira que se seguia a vida no campo e as festas eram realizadas nas estancias onde cada um fazia sua festa comemorando algo e convidava os vizinhos próximos, que nesses tempos todos se tratavam com respeito os “compadres”, os jovens dois primos foram a tal baile, e na vinda já era alta madrugada e o que guiava os dois, era a luz da lua que muitas vezes teimava em se esconder entre as árvores das matas dificultando a caminhada dos dois jovens fazendo demorarem muito mais do previsto.

    Arquivo pessoal de Nilza Terezinha: Foto década de 40. Acervo de seu pai Itrio Araújo dos Santos conhecido como (cabo Itrio), que serviu no 11º Regimento de Cavalaria na cidade de Ponta Porã na década de 40. Itrio Araújo e amigos músicos se preparando para realizar mais um baile no “Maem”i na região fronteiriça.

    Segundo causo sobre este acontecido os jovens escutaram um grunhir alto seguindo de um forte som de assobio e barulhos de galhos se quebrando, os jovens começaram a correr pela mata o desespero tomou conta de ambos o barulho cada vez mais se aproximando dos dois, sem forças e já quase paralisados pelo medo e sensações que a própria mata produz um dos jovens o mais velho chamou o mais novo para que os dois subissem em uma grande árvore para se esconder, pois segundo a lenda o “pé de garrafa” não sobe em árvores, rapaz o mais novo não conseguia sair do lugar paralisado pelo medo o mais velho gritavapara ela se mexer e sair do lugar, mas a única coisa que o jovem mais novo dizia era “an açu” (que significa sombra grande), segue o horror desta estória que o mais velho de cima da grande árvore viu seu jovem primo ser morto e devorado em meios a gritos e grunhidos deste bicho feros que tinha pelos por todo corpo dentes grandes e pés redondos em forma de um fundo de garrafa.

    Segue estória que o rapaz desceu da árvore ao amanhecer e seguiu sua caminhada até chegar a sua estancia, e relatou o acontecido, os estancieiros vizinhos vieram todos, uns diziam que escutaram os gritos e urros durante a madrugada. 
    Arquivo pessoal de Nilza Terezinha: Foto do acervo de seu pai Itrio Araújo dos Santos conhecido como (cabo Itrio), o mesmo era um admirador da arte de tirar fotos. Esta imagem estancieiros que formavam as famosas “Patrulhas Volantes” da região do Maemi nas proximidades de Rincão de Julho década de 40.

    Os valentes fizeram uma comitiva com os mais corajosos em fim de rebuscar a mata atrás do bicho, cavalaria contava com dezenas de bravos homens sedentos de vingança, que seguiram através do interior da mata até o cair do sol e pela madrugada, mas nada encontraram o “pé de garrafa” que continuou a fazer suas vitimas e atacar as estancias devorando seus animais e provocando pavor aos moradores da região. 

    Alguns moradores antigos da região de fronteira que conhecem essa estória que virou lenda relatam que no interior das matas da região ainda se encontram rastros do “pé de garrafa” e na madrugada os seus grunhidos ecoam pela mata. 

    A quem acredita e duvide, mas nem os mais corajosos costumam andar sozinho pela mata para encontrar o “pé de garrafa”. 

    Rememorar causos e lendas e manter viva a memória histórica e cultural de uma região e país, evitando que fatos se percam como gotas de chuva no oceano ou grãos de areia ao vento.

    “A bravura é somente uma parte do medo. Quão bravo você seja o medo está oculto por trás” Osho.