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    17/05/2014

    Ponta Porã Linha do Tempo: A saga da família “SANO” Imigrantes japoneses do pós-guerra.

    De colonos nos cafezais, feirantes a proprietários do famoso “SUPERMERCADO SANO” comercio de referencia na região fronteiriça.


    Auto: Yhulds Giovani Pereira Bueno
    A década de 40 foi muito turbulenta para história mundial principalmente na Europa, pois um grandioso conflito armado mobilizou todo continente Europeu e Asiático e deixou em alerta os demais países do mundo, foi um conflito militar global que teve início em 1939 até 1945, durante praticamente os cinco anos de conflito, envolveu a maioria das nações conhecidas do mundo principalmente as grandes potencias da época, a organização dos fatos se deu com duas alianças militares opostas, os Aliados e o Eixo, e considerada por pesquisadores do assunto como a mais abrangente guerra da história, atingindo o número de mais de 100 milhões de militares mobilizados durante esse confronto, fome, miséria, inúmeras tragédias marcaram esse período histórico. 

    Com o fim do conflito, através da derrota do Eixo de Adolf Hitler, a Europa livre da ocupação Alemã, e a rendição do Japão, após dois ataques das “Bombas Nucleares” nas cidades de Nagasaki e Hiroshima, era hora de se reconstruir, isso se deu lentamente, muitos foram os refugiados pós-guerra que vieram ao Brasil, entre outros países do continente Americano para recomeçar, alguns erguendo morada na região de fronteira, como foi o caso da família “SANO”, que faremos o resgate deste fato histórico que ficou gravado na memória fronteiriça. 


    Pintura do professor da escola japonesa de Pedro Juan Caballero, o mesmo reproduziu a imagem de
     um postal do navio Holandês "TJITJALENGKA" o postal era distribuído no navio, Pintura de 1962, Professor Massato Ono, professor enviado pelo Governo do Japão, ficou uma temporada na região  
    de fronteira e posteriormente voltou para Japão, continuou com Pinturas ficou famoso em seu país, chegando anos depois a realizar exposições de suas telas no Brasil.

    Takeshi Sano e sua esposa Tatsuko Sano, juntamente com seus filhos embarcaram rumo ao Brasil, partindo do porto de Kobe no Japão no dia 01 de Maio de 1956, com destino ao porto da cidade de Santos Estado de São Paulo, isso se deu no inicio de Junho, algumas semanas depois no dia 13 de julho de 1956, chegaram à cidade da região fronteiriça Ponta Porã, pela estrada de ferro NOB-Noroeste do Brasil, que dinamizou esta viagem facilitando e diminuindo o tempo dos passageiros e transporte de cargas, um ganho para a Região Centro Oeste do Extremo Sul de Mato Grosso, neste período histórico do desenvolvimento nacional, um imenso Estado agro pecuário, uma imensidão de terras, muito maior que o seu país de origem que neste período passava por dificuldades para se reconstruir.

    Ponta Porã terra que prometia ganho a quem se aventurasse desbravando esta rica região do Brasil. Um jovem município com um pouco mais de 40 anos de emancipação, que se deu em 18 de julho de 1912. Mas quando a família “Sano” chegou a fronteira, foram trabalhar nos campos de café, em especial do Mr. Johnson e Mr. Smith, tal fazenda produtora de café se localizava no “Chiriguelo” dentro do território do país vizinho Paraguai, no Departamento de Amambay, região da Capital Pedro Juan Caballero, na fazenda existia uma vastidão de pés de café que gerava uma grande produção de grãos dos mesmos, em sua sede existia uma estrutura grandiosa para estes tempo, a mesma construída na época, em blocos de tijolos um belo casarão com toda comodidade e requinte de beleza algo exuberante neste período histórico.

    Senhor Takeshi Sano, sua esposa Tatsuko Sano e seus filhos sendo um deles Akira Sano que trabalhou dos cinco aos dez anos nos cafezais, o mesmo relata que sua família realizava empreitas nos campos de café, isso por alguns anos, Akira Sano somente conseguiu frequentar a escola no lado brasileiro aos dez anos de idade, tal fato se deu por que ele vivia e trabalhava nos campos de café, falava e entendia pouco de Português, e para frequentar o colégio Paroquial São José (escola dos padres), ele deveria ser batizado, algo que ele não era isso devido a sua formação cultural oriunda do Japão, para solucionar tal problemática e ser matriculado na escola dos padres (Colégio Paroquial São José) que se localizava na Avenida Brasil, fora batizado, sua madrinha de batismo dona Helena Fernandes Derzi esposa do Srº Jamil Derzi (in memorian), pertencentes a uma família pioneira de políticos, empreendedores e desbravadores da região fronteiriça nestes tempos, desta maneira já batizado, com o nome cristão de José Akira Sano iniciou sua educação nos moldes cristãos brasileiros.

    A família “Sano” iniciou sua caminhada no comercio brasileiro montando uma barraca na feirinha da cidade que existia ao lado da região do campo de futebol da “Grande Figueira” (em baixo da figueira), hoje existe o prédio do Paço Municipal (Prefeitura) de Ponta Porã, na Rua Antonio João, por longa data a feirinha funcionou neste local, até a construção da nova prefeitura, mudando-se para Rua General Ozório em frente a atual Escola Estadual Joaquim Murtinho, se extinguindo anos depois.

    Neste período de transição da feirinha a família “Sano” abriu o primeiro comercio uma quadra abaixo da feirinha, o nome da casa comercial era “Frutaria Tokio” isso em 1960, com o crescimento da frutaria abriram o comercio na Avenida Brasil nº 2017 que ficou famoso na época por se chamar Mercado São Sano, o senhor Takeshi observou que a maioria dos comércios locais da fronteira tinha nome de santo muitos repetidos, como: São Paulo, Santo Antônio, São Pedro entre outras tantas casas comerciais, para não repetir o nome de algum santo criou o “São Sano” inovando na criatividade, pois tal santo não existe, tempos depois mudou o nome para “Supermercado Sano”, 

    A família chegou a ter no período das décadas de 60 e 70, cinco casas comerciais, sendo três do lado brasileiro e duas do lado paraguaio, isso em pleno regime militar ditatorial no Brasil, gerando empregos indiretos e diretos a muitos fronteiriços nestes tempos, transportavam suas mercadorias de avião de São Paulo nestes tempos, mas com a economia flutuante e algumas crises financeiras, desvalorização da moeda nacional, fecharam quatro das cinco lojas ficando somente com o “Supermercado Sano” da Avenida Brasil, que tempos depois se transformou em restaurante com o nome de “Dona Churrascaria”. Onde se localizou esta casa comercial e restaurante da família “Sano” na Av. Brasil de nº 2017 existe atualmente o Restaurante e Churrascaria “Garfo de Ouro”.

    Arquivo pessoal de Akira Sano: seus pais Senhor Takeshi Sano e sua esposa Tatsuko Sano em frente
    a seu comercio “São Sano” que se localizava na Av. Brasil, década de 60.

    Akira Sano relata que o fechamento das lojas foi necessário para quitar compromissos, foram muito bem sucedidos na região por longo tempo sem dúvidas geraram empregos e ajudaram a desenvolver o comercio local, colaboraram com atividades e eventos socioculturais do município, deixaram sua marca nas gerações passadas e novamente foram em busca de novos sonhos.


    Arquivo pessoal de Akira Sano; Balão de propaganda contratado de uma agencia de publicidade 
    da capital de São Paulo, o mesmo ficou suspenso por 30 dias no céu de Ponta Porã, década de 70.

    A família “Sano” retornou ao Japão, ficando por algum tempo, principalmente no período que o país estava recebendo bastante mão de obra estrangeira, os ganhos eram bons, retornaram ao Brasil se fixando no interior do estado de São Paulo, realizando novos investimentos, sempre buscando inovar e acreditar.

    Arquivo pessoal de Akira Sano: Desfile cívico realizado na Av. Brasil em Ponta Porã, ao fundo o
    prédio do correio, década de 70.

    Superação é a historia de vida da família “Sano”, que veio de um país destruído pela guerra, acreditou que aqui poderia vencer, foi à luta, ensinou a muitos de sua geração a nunca desistir por mais que a dificuldade bata a sua porta, você sempre deve acreditar que pode vencer ir à busca dos seus sonhos e principalmente valorizar a família. 

    O senhor Takeshi Sano hoje tem 90 anos de idade mora no interior do Estado de São Paulo sua esposa Tatsuko Sano, faleceu em 2001, Akira Sano por longos anos morou no interior paulista, hoje reside na grande metrópole da América Latina a Capital São Paulo o paraíso do sonho comercial e empresarial, continua realizando seus negócios, investimento e empreendimentos, pois se a vida lhe oferece a oportunidade por que não tentar novamente.

    Resgatar eventos históricos culturais de uma geração analisar fatos do cotidiano de migrantes, emigrantes e imigrantes, que se deslocaram da sua terra de origem em busca de um ideal, acreditando que aqui na região fronteiriça poderiam construir sua morada e crescer, mesmo sabendo que não seria fácil, e na sua caminhada sempre existiram obstáculos, mas quem acredita consegue vencer as turbulências que a vida oferece.

    Nossa região fronteiriça foi construída com sangue, suor e lagrimas, nada nesta terra foi ou será fácil e lugar de fortes para os fortes e sempre estará de braços abertos para acolher quem aqui quiser viver e vencer.

    Agradeço a colaboração do amigo Akira Sano que através do seu relato me proporcionou narrar esta bela historia de vida da família “Sano”.




    Pesquisador e historiador: Yhulds Giovani Pereira Bueno. Pós-graduado em Metodologia Científica em História e Geografia. Professor de qualificação profissional, gestão e logística (Programas Municipais, Estaduais e Federias). Professor coordenador da Rede Municipal de Educação, membro do Grupo Xiru do CTG – Querência da Saudade – Ponta Porã – MS.