Cláudia Ferreira foi morta durante confronto no Morro da Congonha.
Vítima foi colocada em carro da PM e caiu durante caminho para o hospital.
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| Cláudia da Silva Ferreira foi arrastada em carro da polícia militar do Rio de Janeiro (Foto: Mariucha Machado/G1) |
O marido da auxiliar de serviços Cláudia da Silva Ferreira, que morreu após ser atingida por uma bala perdida no Morro da Congonha, em Madureira, no Subúrbio do Rio, afirmou ao G1 nesta segunda-feira (17/03) que a mulher foi tratada como "bicho". A declaração foi dada durante o velório que está sendo realizado no Cemitério de Irajá, também no Subúrbio. Alexandre Fernandes da Silva contou que só soube que a mulher havia sido arrastada no caminho do hospital quando chegou na UTI.
Cláudia foi baleada no domingo (16) durante uma operação policial. Testemunhas contaram que ela foi colocada no porta-malas do carro da polícia para ser levada ao hospital. No entanto, durante o trajeto, o porta-malas abriu e o corpo da auxiliar de serviços caiu, sendo arrastada pela rua por cerca de 250 metros.
"Trataram ela como um bicho. Nem o pior traficante do mundo deveria ser tratado assim. Quando cheguei no hospital, eles falaram que ela tinha ido para a UTI, mas ela já estava morta. Ela leva um tiro no peito e é arrastada no chão. Como vai sobreviver? Temos quatro filhos, uma de 18 anos, um de 16 e um casal de gêmeos que fará 10 anos no próximo domingo. Meu filho não quer ver a mãe no caixão, mas ele tem que ver. Eu estou preparando eles, é a mãe deles, eu não posso esconder isso", afirmou o marido de Claudia.
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Cláudia Silva Ferreira está sendo velada no Cemitério de Irajá, no Subúrbio do Rio
(Foto: Mariucha Machado/G1)
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Alexandre Ferreira acredita que a mulher não teria morrido se não tivesse sido arrastada. "Se não tivessem arrastado ela, ela poderia estar viva", afirmou o viúvo, acrescentando que os policiais militares não preservaram a cena do crime.
Cláudia Silva Ferreira, de 38 anos, era mãe de quatro filhos e criava quatro sobrinhos. O enterro está previsto para as 13h.
PMs afastados
Os três policiais militares que socorreram Cláudia da Silva Ferreira, de 38 anos, no Morro da Congonha, em Madureira, no Subúrbio do Rio, foram afastados. Por volta de 11h, os três PMs prestavam depoimento na 2ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar da Corregedoria interna da corporação.
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Cláudia Silva Ferreira foi atingida por bala perdida
no Morro da Congonha, em Madureira, no Rio
(Foto: Mariucha Machado/G1)
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"Lamentamos muito a forma como a senhora Cláudia foi socorrida, é uma forma que nós não toleramos. A corporação não compactua com isso. Por essa razão, eles estão sendo autuados e serão conduzidos à unidade prisional", afirmou o relações-públicas da PM, tenente-coronel Cláudio Costa em entrevista à GloboNews. "O ideal era que ela fosse no banco de trás amparada por um policial, o que não aconteceu", acrescentou Costa, referindo-se à forma como a vítima foi socorrida.
O jornal Extra publicou nesta segunda (17) o vídeo feito por um cinegrafista amador que mostra a mulher sendo arrastada por cerca de 250 metros. Cláudia da Silva Ferreira teria ficado pendurada no para-choque do veículo apenas por um pedaço de roupa.
“Minha filha contou que ela ia comprar R$ 3 de pão e R$ 3 de mortadela, mas não deu tempo de chegar”, disse o marido de Cláudia, que preferiu não se identificar por questões de segurança.
Vítima temia pelos filhos
O filho da auxiliar de serviços Cláudia da Silva Ferreira, que morreu após ser atingida por uma bala perdida no Morro da Congonha, em Madureira, no Subúrbio do Rio, contou ao G1 nesta segunda-feira (17) que a mãe temia que os filhos fossem atingidos em confronto na comunidade ou fossem confundidos com traficantes da região. A PM abriu um inquérito para investigar os fatos.
O adolescente de 16 anos afirmou — durante velório da mãe no Cemitério de Irajá, no Subúrbio, — que há constantes trocas de tiros no morro.
"Ela tinha medo das ações da polícia na comunidade. Todo os dias, eles [ PMs] chegam atirando e depois vão ver quem é. Ela não deixava a gente ficar na rua com medo de acontecer alguma coisa ou de confundirem a gente com traficantes", disse.
O irmão de Cláudia, Júlio Cesar, disse afirma que a auxiliar de serviços foi colocada com vida no carro da PM. "Eles [PMs] fizeram isso com ela. A gente não sabe como vai ficar a nossa vida agora. São oito crianças. Quem vai cuidar deles agora? O pai não pode parar de trabalhar. Como vai ser a nossa vida agora?", questionou.
'Interromperam o sonho dela', diz marido
Segundo a PM, os policiais faziam uma operação na comunidade. Houve troca de tiros com traficantes e a auxiliar de serviços gerais foi baleada. Logo depois, os moradores revoltados protestaram contra a ação da polícia. Dois ônibus foram queimados.
Eles bloquearam a Avenida Ministro Edgar Romero, uma das principais de Madureira. Segundo os moradores, Cláudia foi baleada no peito e na cabeça pelos policiais do 9º BPM, que subiram o morro atirando.
“Os policiais chegaram de manhã e já chegaram atirando nem mandou nada, chegaram atirando e os tiros caíram todos em cima dela. As pessoas gritaram: é mulher, trabalhadora, moradora e eles continuaram atirando”, afirmou uma moradora.
Amigos de Cláudia reclamaram que os PMs demoraram a socorrê-la. Para eles, a vítima não foi socorrida imediatamente após ser atingida: o socorro só teria sido prestado depois que um traficante foi alvejado.
“No ato em que socorreram, ela não estava com a perna ferida quando ela foi colocada no carro da PM, mas quando chegou ao hospital ela estava coma perna direita em carne viva, a gente entende que ela foi arrastada em algum lugar, que não foi lá, que não tem marca de sangue pelo chão, mas a perna dela está na carne viva. Não deixaram que ninguém acompanhasse, muito mal informaram para onde estava levando ela”, disse um amigo da vítima.
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Moradores do Morro da Congonha encontraram
cápsulas de balas na comunidade
(Foto: Sabrina Gonçalves/Arquivo Pessoal)
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Resposta da PM
Em nota, a PM contou que Cláudia da Silva Ferreira teria sido colocada no porta-malas do carro e no caminho do hospital a porta se abriu e foi neste momento em que parte do corpo da moradora acabou sendo arrastado pela rua e provocando mais ferimentos. O comando da PM afirmou que este tipo de conduta não condiz com um dos principais valores da corporação que é a preservação da vida e da dignidade humana.
A Policia Militar informou ainda que os policiais encontraram Cláudia já baleada no alto do morro.
Ela ainda foi levada para o Hospital Estadual Carlos Chagas, mas não resistiu.
Segundo a PM, na operação em Madureira, um traficante foi morto e outro foi ferido e preso. Os policiais apreenderam quatro pistolas, rádios e drogas na comunidade. A Policia Civil vai investigar de onde partiram os tiros.
Para a família, a dor se mistura à indignação. “A sensação é que no morro, na favela só mora bandido, marginal; insegurança, somos tratados como animais”, diz um amigo de Cláudia.
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| Ônibus foram queimados durante a noite de domingo (16) em protesto de moradores do Morro da Congonha (Foto: Wallace Luiz/VC no G1) |
Do G1 Rio
Por: Mariucha Machado








