| Osvanor Cardinot, que morava no Condomínio do Lago, sempre volta para procurar vestígio da neta que morreu Foto: Bruno Gonzalez / Extra |
A presidente Dilma Rousseff lança hoje em Brasília o Plano Nacional de Gestão de Risco e Respostas a Desastres Naturais, chamado popularmente de PAC da Prevenção, com uma série de ações para evitar novas catástrofes como a da Região Serrana do Rio em 2011. Diversos estados serão contemplados com os recursos, cujo montante pode chegar a R$ 20 bilhões. Desde domingo, o EXTRA mostra, numa série de reportagens, que o número de desaparecidos na tragédia é maior do que o divulgado.
De acordo com o vice-governador Luiz Fernando Pezão, estão previstas cerca de 30 ações no plano. A Serra receberá a maior parte dos recursos destinados ao Rio e terá obras de contenção de encostas, dragagem, drenagem e construção de casas e apartamentos populares para diminuir o número de pessoas morando em áreas de risco.
Ontem, o governador Sérgio Cabral reuniu-se com a ministra Gleisi Hoffmann, chefe da Casa Civil, para tratar dos investimentos e acertar os detalhes do plano.
Segundo Cabral, já ficou definido que parte dos recursos virá do Tesouro Nacional e parte dos estados. O governador afirmou que o estado fará "um grande esforço" para aportar entre 40% e 50%:
— Vai ser um plano multifacetado, que pega Defesa Civil, controle, investimento em prevenção — afirmou.
O plano envolve os ministérios das Cidades, Defesa, Ciência e Tecnologia e Integração Nacional. Segundo Cabral, os investimentos já em curso na Região Serrana alcançam R$ 1,2 bilhão. São R$ 400 milhões do governo estadual e R$ 800 milhões do federal, incluindo os recursos do programa Minha Casa, Minha Vida, estimados em R$ 300 milhões, para quase 8 mil unidades habitacionais.
Força-tarefa na Serra
Nesta quarta-feira, os coordenadores dos Centros de Referência em Direitos Humanos (CRDH) que farão parte da força-tarefa na Região Serrana se reúnem em Petrópolis para esquematizar como será o trabalho.
Dez profissionais, entre advogados, assistentes sociais e psicólogos, terão a missão de ouvir famílias, prestar consultoria jurídica e cruzar os dados de desaparecidos com informações de cartórios, escolas, postos de saúde e cadastros sociais, como o do Bolsa Família.
De acordo com João de Souza Júnior, coordenador-geral dos CRDHs, o primeiro dia deverá se resumir às questões de organização.
— Se for possível, visitaremos a região do Vale do Cuiabá, em Petrópolis, que também sofreu na época da tragédia, para termos uma ideia do que ocorreu por lá — afirmou João, que chega de Brasília para se juntar ao grupo.
O trabalho que começa hoje foi planejado pela Secretaria de Direitos Humanos ao longo do mês de julho. De acordo com a SDH, As famílias receberão ainda auxílio jurídico para agilizar a emissão de atestados de óbito e exames de DNA.
| A destruição em Córrego Dantas, Nova Friburgo, um ano e meio depois. Foto: Bruno Gonzalez / EXTRA |
Encontrado osso que pode ser de vítima
De tanto caminhar pelo terreno soterrado do que um dia foi o Condomínio do Lago, em Nova Friburgo, o borracheiro Osvanor Cardinot, de 54 anos, acabou encontrando o que esperava localizar há 18 meses: parte de um osso que pode ser de uma vítima da tragédia. Há 15 dias, quando andava próximo do rio ao lado da área, ele avistou o que pode ser parte de uma vértebra.
— Levei para a Polícia Civil, e eles disseram que era osso humano. Ficaram de encaminhar para análise de DNA. Estamos aguardando pelo chamado deles. Mas já é uma esperança — diz Osvanor, que perdeu a neta de 1 ano e 11 meses na tragédia.
Osvanor não esquece a noite em que viu Laís escapar dos braços da mãe, em meio à avalanche, e desaparecer. Quatro meses depois da tragédia, quando se curou dos ferimentos e voltou a andar, o borracheiro passou a visitar o lugar onde perdeu a neta:
— Quando estava sendo socorrido, avisei para não meterem as máquinas, porque o corpinho dela estava por cima da terra, mas embaixo d’água. Mas meteram as conchas.
Firme no propósito de encontrar algum vestígio da criança, Osvanor, que hoje mora em Campo do Coelho, ainda percorre o bairro onde 22 casas sumiram na lama:
— Fico com isso o tempo inteiro na cabeça. A chance que tenho é esta, de rodar por aqui e ver se encontro alguma pista. Se achei com as mãos, será que não vão achar algo usando uma máquina?
Mesmo que o osso encontrado não pertença a Laís, Osvanor afirma que não irá se abater. Pelo contrário, manterá a intenção de continuar andando pela região. Afinal, outros conhecidos continuam desaparecidos.
Fonte: Extra
Por: Aline Custódio e Guilherme Amado