Campo Grande (MS),

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    segunda-feira, 22 de agosto de 2016

    OPINIÃO| Estado Islâmico cada vez mais perto do fim?

    Relato expiatório do cerco a Manbij

    Membros das Forças Democráticas Sírias, no vilarejo de Haj Hussein, área rural ao sul de Manbij.

    Encerraram-se recentemente os ataques das Forças Democráticas Sírias em Aleppo, para capturar a cidade de Manbij, em um esforço que buscava, de todas as formas e maneiras possíveis, abalar a estrutura de poder que sustenta o Estado Islâmico. Conduzida com o apoio do exército americano, o objetivo da ofensiva militar era sitiar o núcleo da organização terrorista, impedindo seu abastecimento de suprimentos por meio de fontes externas, da mesma forma que buscava impedir a retirada de terroristas, para missões suicidas, especialmente na Europa e na Turquia.

    No final de 2015, quando as Forças Democráticas Sírias – coalizão de guerrilheiros de diversas raças e etnias, composta por árabes, armênios, assírios, curdos, circassianos e turcomanos sírios – reaveram a cidade de Tishrin, bem como as áreas circunjacentes, um plano começou a tomar forma para conquistar outros territórios que estavam sob o controle do Estado Islâmico, o que incluía a cidade de Manbij. Alguns meses depois, um concílio formado na cidade de Sarrin por estes mesmos milicianos – uma espécie de governo local em exílio –, muitos dos quais fugiram de Manbij após o Estado Islâmico apossar-se da localidade, reinventou uma série de estratégias e planos para tomar a cidade da organização terrorista. Reuniões com as forças especiais táticas do exército americano posteriormente solidificaram o plano, que começou de forma aguerrida e intensa no dia 31 de maio. 
    Membros das Unidades de Proteção Popular (YPG), na cidade de Qamishli.

    Com uma estratégia inteligente, que não dispensou viscerais doses de agressividade, as Forças Democráticas Sírias iniciaram um combate feroz, tomando a localidade vilarejo por vilarejo, e a surpresa do ataque pegou os terroristas do Estado Islâmico desprevenidos, muitos dos quais foram obrigados a abandonar o local às pressas, com suas famílias. A partir do mês de junho, o cerco começou a ficar cada vez mais agressivo, e as ofensivas do exército americano, combinadas com os arrojados e destemidos ataques das milícias das Forças Democráticas Sírias, unidos desferiram ataques sem trégua que não davam tempo do EI revidar ou reagir. Progressivamente cada vez mais enfraquecidos, o Estado Islâmico foi perdendo território de forma substancial e dramática. Para abalar ainda mais a moral da organização terrorista, no dia 6 de junho, dois líderes do Estado Islâmico, Abu Huzaifa Alordoni e Hasan Rimo, foram mortos em ataques aéreos.

    Dois dias depois, em 8 de junho, os ataques intensificaram-se, ficando ainda mais brutais e hostis. Na tentativa de não perder Manbij, o Estado Islâmico realocou vários de seus membros para a cidade, em uma desesperada medida de conter o avanço inimigo. Não obstante, o esforço mostrou-se vão, e a resistência oferecida pelo Estado Islâmico acabou tornando-se insignificante, deplorável e irrisória. 
    Membros das Forças Democráticas Sírias, a brigada mista que reúne diversas etnias e nacionalidades, unidas no combate ao Estado Islâmico.

    As operações contra o Estado Islâmico mostraram-se, em um curto espaço de tempo, cada vez mais significativas e viáveis. Enfraquecendo exponencialmente da raiz à base de comando, o colapso do EI começou a tornar-se uma benévola e irrestrita realidade – ao menos localmente –, especialmente quando vários de seus líderes começaram a cair. Em Manbij, Osama al-Tunisi, representante do Estado Islâmico na localidade, ao perceber que o cerco se fechava na cidade, tentou uma fuga desesperada com seus serviçais e sua família, para logo depois todos acabarem mortos em um bombardeio. Posteriormente, membros das Forças Democráticas Sírias liberaram gravações que fizeram de seu corpo, ostentando uma vitória significativa contra os terroristas. 

    Não obstante, nenhuma vitória é irreversível ou permanente, e tão logo seu colapso foi anunciado em Manbij, e o Estado Islâmico, assim que pôde, começou uma brutal retaliação, que teria permitido a eles conquistarem novamente alguns vilarejos na localidade. Teriam anunciado também que Abu Khalid al-Tunisi teria sido escolhido como o novo Califa de Manbij, para substituir Osama al-Tunisi. 

    Por vários dias seguidos, os ataques continuaram, de forma acirrada, hostil e evasiva, em ambos os lados. Não obstante, a violência cometida pelo Estado Islâmico contra a população civil excedeu, como sempre, todos os níveis de brutalidade conhecidos. Invadindo casas, efetuando espancamentos, espoliando propriedades alheias, matando e abusando sexualmente de mulheres e garotas, os terroristas continuaram a espalhar seu regime de terror aonde quer que estivessem, fazendo com que fosse primordial, prioritário e urgente para as Forças Democráticas Sírias acabar com o inimigo tão logo quanto possível.

    Na metade do mês de junho, as Forças Democráticas Sírias haviam retirado do Estado Islâmico cento e cinco vilarejos e localidades, reduzindo drasticamente sua zona regional de influência, ao mesmo tempo em que passou a contar com o auxílio e o apoio do exército francês na ofensiva militar. Depois de cercar o território por vários dias, o cerco à Manbij estava formado, e um contra-ataque independente ao Estado Islâmico foi plenamente estruturado. Apesar de ataques cruéis, ardilosos e hostis por parte da organização terrorista, que foi capaz de recapturar dois vilarejos que havia perdido, a ofensiva ainda mais agressiva e mordaz das Forças Democráticas Sírias reverteu todos os ganhos recentes do Estado Islâmico, deixando os terroristas ainda mais encurralados, em um território árduo e inóspito, onde a escassez de recursos e estrutura começou a afetá-los seriamente. Ao entrarem na cidade, as Forças Democráticas Sírias conseguiram imediatamente colocar sob o seu domínio um distrito, e ao avançarem para o centro de Manbij, o controle territorial começou a se mostrar uma realidade cada vez mais próxima, em função das fraquezas, deficiências e debilidades do Estado Islâmico, que se tornavam cada vez mais aparentes. Depois de efetuarem e garantirem, de fato, enorme possessão territorial com relação a grande parte da cidade, as Forças Democráticas Sírias começaram a trabalhar para auxiliar, reunir e acima de tudo evacuar os civis da região. 

    Não obstante, o Estado Islâmico não perdeu tempo, e imediatamente começou a se reestruturar e a se reorganizar. No início de julho, a organização terrorista dirigiu uma pesada retaliação contra seus inimigos, sendo repelidos com muita dificuldade. Muito mais organizados e estratégicos, o Estado Islâmico deu início a um vigoroso embate, que se mostrou difícil de repudiar. A partir do dia 3 de julho, informações conflitantes na mídia passaram informações confusas com relação aos eventos do conflito, com um canal alegando que as Forças Democráticas Sírias estavam exercendo um controle cada vez maior sobre a situação, enquanto outro alegava que ofensivas por parte do Estado Islâmico haviam garantido à organização terrorista a conquista de mais territórios e vilarejos, e outro apenas informando que a ferocidade da batalha causou baixas dramáticas em ambos os lados. Um porta-voz oficial das Forças Democráticas Sírias publicou nas redes sociais o que pareceu ser um relato mais preciso dos esforços de guerra, o que incluiu reconhecer limitações de caráter ofensivo em determinadas operações, pelo fato do Estado Islâmico, em algumas situações, ter passado a usar civis como escudo. 

    As intermitências da conquista territorial permaneceram por vários dias, com ambos os lados empenhando-se em uma brutal e acirrada campanha de ganho territorial. Conforme ganhavam apoio e suporte da população, diversos civis voluntariamente alistaram-se nas Forças Democráticas Sírias, para combater os terroristas. Não obstante, as Forças Democráticas Sírias foram capazes de realizar uma significativa e árdua vitória sobre a organização terrorista. Ainda que de início a mídia e a imprensa constantemente se viram em flagrantes divergências com relação ao quanto a cidade estava, ou não, em poder das Forças Democráticas Sírias, com relatos que afirmavam que 40% da cidade estava sob seu controle, enquanto outros elevavam o número para 70%, as disputas continuaram, mais acirradas do que nunca. Eventualmente, as Forças Democráticas Sírias conseguiram reduzir o Estado Islâmico em Manbij a apenas alguns isolados núcleos de resistência, vindo a adquirir 90% de controle da cidade. 

    Com a continuidade das operações nos dias que se seguiram, a extinção do Estado Islâmico em Manbij tornou-se uma realidade. Os poucos núcleos de resistência que haviam foram, um a um, reduzidos a nada. Os pouquíssimos militantes do Estado Islâmico que passaram a existir tornaram-se vagos e aleatórios indivíduos lutando pela sobrevivência. Com aproximadamente menos de cem militantes, de acordo com algumas estimativas, os terroristas remanescentes deixaram Manbij, através do que parece ter sido um suspeito e escuso acordo entre as partes, ainda não muito claro. No dia 12 de agosto, os terroristas restantes deixaram a cidade, em aproximadamente quinhentos veículos. Um porta-voz das Forças Democráticas Sírias afirmou que nada poderiam ter feito, em função dos dois mil reféns que os terroristas levaram com eles. Adotando de forma cada vez mais ostensiva a prática de se protegerem usando escudos humanos, a prioridade, evidentemente, era deixar incólumes os civis capturados. Depois que os últimos terroristas deixaram Manbij, a cidade foi declarada livre de militantes do Estado Islâmico, e membros das Forças Democráticas Sírias começaram a executar na cidade operações de limpeza ostensiva na área. Não obstante, ainda existem riscos de possíveis retaliações e contra-ataques. Para todos os efeitos, o Estado Islâmico não foi definitivamente eliminado, e, invariavelmente, a luta continua. Reaver cidades que estão sob o controle dos terroristas, uma a uma, vilarejo por vilarejo, distrito por distrito. Uma tarefa árdua, pesada, brutal e difícil. Mais uma vez, o terrorismo pesa sobre as populações locais, com seus rostos suaves, anônimos, sofridos, condoídos, esperando por momentos como esse: que unidades militares e milícias populares tragam a salvação, resgatando-os de uma inenarrável e desumana realidade visceral, onde o medo é diário e o risco de morte é iminente. Para aqueles que conseguiram manter-se vivos, é sem dúvida nenhuma, um momento de imponderável redenção. 


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