Campo Grande (MS),

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    10/11/2018

    CASO DANIEL| Suspeito afirma que Edison Brittes disse que mataria Daniel após ver algo em telefone celular

    Segundo David Willian da Silva, Edison Brittes ficou descontrolado quando eles já estavam no carro, com Daniel Correa dentro do porta-malas. Corpo do jogador foi encontrado com sinais de tortura na Região Metropolitana de Curitiba.

    Daniel Corrêa Freitas ©Rubens Chiri/saopaulofc.net
    Um dos suspeitos de envolvimento na morte de Daniel Freitas afirmou, em depoimento à polícia, que Edison Brittes Júnior disse que mataria o jogador após ver algo em um telefone celular. Isso ocorreu no momento em que eles estavam no carro, com Daniel dentro do porta-malas.

    David Willian da Silva, de 18 anos, foi interrogado na tarde de sexta-feira (9) e afirmou que Edison Brittes ficou descontrolado, mas que não sabe o que ele viu no celular.

    “Tudo estava tranquilo dentro do carro, na intenção de deixar Daniel no meio da rua, para passar vergonha, e que Edison trazia consigo um celular, que não sabe se era dele ou não, e que Edson estava normal e que, ao ver algo no aparelho celular, ficou descontrolado e disse que mataria Daniel”, diz um trecho do termo de interrogatório.

    O jogador de futebol Daniel Freitas, de 24 anos, foi encontrado morto em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, em 27 de outubro.

    David e Ygor King, de 19 anos – outro suspeito de envolvimento no crime e que também foi ouvido na sexta – disseram que não desceram do carro quando Daniel foi retirado do porta-malas.
    Edison Júnior, a filha Allana, e a esposa dele, Cristiane; eles estão presos acusados da morte do jogador de futebol Daniel — Foto: Reprodução/TV Globo
    Com base em inquérito policial a que a RPC teve acesso e nos depoimentos das testemunhas, o G1 reconstitui o que houve e aponta as divergências:

    CHEGADA - Daniel chegou a Curitiba às 21h30 de 26 de outubro, uma sexta-feira. Ele deixou as malas na casa de um amigo, tomou um banho e seguiu para uma festa antes do aniversário de Allana.

    BALADA - Por volta da meia-noite, Daniel e um amigo foram a uma casa noturna no Batel, em Curitiba, para o aniversário de Allana, filha de Júnior e de Cristiane; ele era convidado de Allana. Os convites foram entregues ao jogador e o amigo pelo pai da aniversariante.

    'AFTER' - Já na manhã de sábado, 27 de outubro, deixou a casa noturna e embarcou em um carro com amigos para continuar a festa na casa de Allana; a aniversariante, os pais e mais alguns amigos também foram, em outros carros;

    AUSÊNCIA - Uma testemunha declarou à polícia que todos ficaram no fundo da casa bebendo e conversando, e que em seguida Cristiane e Allana, mãe e filha, foram dormir. Alguns minutos depois, Daniel saiu da vista do grupo;

    MENSAGENS - Em um grupo de Whatsapp com amigos, às 6h36 da manhã, Daniel diz estar na casa da aniversariante. Às 8h09, em outra conversa, escreve: "Vim para Curitiba... Niver de uma mina". Às 8h17, diz a um amigo, também em mensagem, que iria "comer a mãe" da aniversariante, e que o pai de Allana também estava no local.

    FOTOS - Às 8h34, ele diz: "comi ela mlq [moleque]". Também via aplicativo, envia duas imagens, nas quais Daniel aparece na cama, ao lado de Cristiane, que está dormindo. Em seguida, ele se despede. Foi a última conversa de Daniel com os amigos.

    Divergências

    Aqui começam as divergências:

    1 - GRITOS

    Segundo a testemunha, Edison Júnior, ainda na área externa da casa com os demais convidados da festa, percebe a ausência de Daniel e sai para procurá-lo. Logo depois, a testemunha passa a escutar gritos dentro da casa.

    À RPC, Edison Junior disse ter ouvido Cristiane gritando por "socorro". "De repente, uns 40 minutos [depois] que eles tinham chegado, eu escuto gritos, socorro, socorro, socorro. Fui entrar no meu quarto, a porta fechada. Pensei: meu Deus, a porta fechada. A Cris não fecha a porta. Quando eu me deparo, o Daniel está em cima dela, tentando estuprar a minha mulher. Nesse momento, que eu vi isso, eu saí de mim. Eu fiquei desesperado".

    Diferente do que havia afirmado na entrevista, ao depor, Edison disse que encontrou a porta trancada e ouviu dois gritos de socorro. Ele afirmou que foi até a janela e viu Daniel de cueca e camiseta, em cima da esposa, quando pulou a janela e pegou Daniel pelo pescoço.

    Em depoimento à polícia, Cristiane disse que acordou com Daniel deitado sobre ela, só de cueca.

    Após ouvir testemunhas, a polícia disse que Daniel não tentou estuprar e não manteve relações sexuais com a esposa de Edison Júnior.

    O advogado de testemunhas que estavam na casa, que não tiveram a identidade revelada, afirmou que seus clientes ouviram gritos do jogador, ao ser espancado, e não ouviram gritos de Cristiana. As testemunhas também disseram que não houve arrombamento.

    Em um vídeo gravado pela defesa da família Brittes, Allana disse que abriu a porta do quarto e flagrou Daniel com a mãe. A porta foi submetida à perícia para verificar eventual arrombamento. O delegado Amadeu Trevisan disse que não houve arrombamento da porta.

    2 - ROUPA

    Edison Junior disse à RPC que colocou pijama na esposa e a pôs na cama. Em depoimento à polícia, Allana disse que foi ela quem colocou o pijama na mãe e que ela continuou na festa da casa por alguns minutos antes de ir se deitar. A polícia, no entanto, afirma que Cristiane estava "vestida com o vestido que estava usando na festa e com o mesmo colar" com base nas fotos que Daniel compartilhou com um amigo.

    3 - ARMA

    Edison Junior disse, na entrevista, ter matado Daniel com uma faca, que estava dentro do seu carro; a testemunha disse que o empresário pegou uma faca ainda na cozinha.

    Ele preferiu ficar em silêncio no interrogatório quando foi questionado sobre como o jogador foi morto, mas assumiu toda a autoria do crime. Ao ser perguntado sobre a faca e sobre o pênis do jogador, Edison disse que já colaborou e informou onde os objetos foram arremessados.

    As testemunhas ouvidas pela polícia, no entanto, disseram que Edison Júnior pegou a faca na cozinha de casa. De acordo com o depoimento de uma das testemunhas, era uma faca de cerca de 20 centímetros, sem serra.

    Depois de espancado, Daniel foi levado dentro de um carro por Edison Júnior e mais duas pessoas para um matagal, onde o corpo foi encontrado. A faca, jogada num riacho, ainda não foi encontrada.

    Além disso, em entrevista à RPC, Edison disse que nunca teve uma arma de fogo, contudo o empresário tem dois Boletins de Ocorrência registrados contra ele envolvendo arma de fogo.

    Combinação de versões

    Segundo a testemunha, Allana e a família chamaram-na para combinar uma versão na segunda-feira sobre o desaparecimento de Daniel. Essa testemunha disse que a família orientou o que deveria ser dito, caso fosse procurada, pela polícia.

    De acordo com a testemunha, Edison Júnior propôs que eles "fechassem um elo", e que se alguém falasse algo, ele saberia quem era. A testemunha disse que entendeu a fala como uma ameaça.

    No depoimento, Edison confirmou que combinou um encontro em um shopping de São José dos Pinhais, com três pessoas que estavam na casa, e disse que o objetivo era “protegê-los”.
    Edison Brittes Júnior foi preso na quinta-feira (1º) — Foto: Reprodução/RPC
    Suspeito ligou para família de Daniel após o crime

    Segundo o advogado de defesa da família, Edison Júnior ligou para dar os pêsames à mãe do jogador Daniel na segunda-feira (29), dois dias após a morte do rapaz.

    Allana, filha de Edison Júnior, também entrou em contato com a família do jogador após a morte de Daniel.

    A aniversariante trocou mensagens via WhatsApp com a tia do jogador de futebol um dia depois do crime.

    Questionada pela família onde estaria Daniel, Allana respondeu que não sabia dele, que não houve briga na casa dela e que o jogador foi embora, sozinho, por volta das 8h da manhã de sábado.

    Celular do jogador

    Edison Júnior disse no interrogatório que o aparelho celular de Daniel havia ficado caído no quarto e que foi quebrado por um dos homens que ficou na casa, enquanto ele saiu de carro com o jogador.

    Segundo o depoimento do empresário, após voltar, ele jogou fora o celular quebrado, sem antes disso, ter encostado no aparelho.

    Mensagens que Daniel trocou com amigo




    Outros suspeitos

    A Polícia Civil do Paraná estava procurando por outros suspeitos que teriam participado da morte de Daniel.

    "Sabemos que três pessoas entraram com ele e o jogador dentro do carro para matar Daniel", afirmou o delegado Amadeu Trevisan, da Delegacia de São José dos Pinhais, no dia em que Edison Júnior foi preso.

    Em 5 de novembro, Eduardo Henrique da Silva, um desses suspeitos, se apresentou à Delegacia de São José dos Pinhais. Ele mora em Foz do Iguaçu, oeste do Paraná, tem 19 anos e é primo de Cristiana. Eduardo foi preso preventivamente na quarta-feira (7).

    O advogado dos outros suspeitos foi à Delegacia de São José dos Pinhais, também no dia 5, e disse que eles estavam na Região de Curitiba à disposição para prestar esclarecimentos. A polícia considera os dois suspeitos foragidos.

    O delegado disse que o jogador não teve como reagir à agressão que sofreu dentro da casa. Ainda conforme o delegado, Daniel estava muito embriagado.

    Visita ao local do crime

    O promotor Milton José, que acompanha as investigações, foi até o local onde o corpo de Daniel foi encontrado. Segundo ele, o jogador estava vivo quando chegou ao local. Ele também disse que havia muito sangue próximo à rua, e que não havia sangue onde o corpo foi encontrado.

    Daniel

    O meia Daniel estava emprestado pelo São Paulo ao São Bento, time que disputa a Série B do Campeonato Brasileiro. Em 2017, jogou no Coritiba.

    Daniel nasceu em Juiz de Fora (MG) e tinha 24 anos. Revelado pelo Cruzeiro, o meia também passou pelo Botafogo e Ponte Preta.

    O atleta foi velado e enterrado em Conselheiro Lafaiete (MG), onde a família dele mora.

    Por G1 PR e RPC


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