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    segunda-feira, 28 de agosto de 2017

    OPINIÃO| Vietnã – A ditadura comunista que nós nunca abordamos

    Conferência do Partido Comunista
    O Vietnã é uma nação do sudeste asiático com aproximadamente noventa e dois milhões de habitantes, que vem a ser um dos quatro países do mundo que oficialmente adota o modelo comunista como forma de governo. Seu desenvolvimento tímido, que prospera com modestos, porém graduais resultados positivos, são resultado de uma política financeira que optou por ingressar na economia de mercado, como medida urgente para reverter os deploráveis resultados inerentes a um sistema estatizante asfixiante e disfuncional, que por pouco não levou a nação ao colapso e a falência total. Infelizmente, sua corrosiva e violenta história mostra um país que sofreu com a brutalidade dos excessos cruéis e desumanos inerentemente ligados ao comunismo, que teve como consequência maior uma diáspora de milhares de vietnamitas desesperados, determinados a fugir e estabelecerem-se em outros países. No entanto, com a inexistência de capital e livre mercado, a nação, encontrando-se profundamente imersa na mais absoluta pobreza – apesar de permanecer profundamente agrilhoada ao comunismo em questões políticas e ideológicas – obrigou o governo a adotar medidas mais autônomas e liberais na economia. Desde o princípio do século 21, portanto, o Vietnã vem experimentando um certo nível de progresso e prosperidade que, se não apaga os horrores, o morticínio e as crueldades perpetradas pelo regime comunista no passado, ao menos não escraviza de forma ostensivamente desumana e arbitrária seus cidadãos no presente. 
    Propaganda comunista na qual destaca-se esboço estilizado de Hồ Chí Minh
    Ao falar no Vietnã, é impossível não lembrar a notória guerra que ocorreu em seu território entre 1955 e 1975, e que teve fundamental participação dos Estados Unidos do princípio dos anos 1960 até agosto de 1973. A participação americana ocorreu pelos mesmos motivos que levaram os Estados Unidos a envolver-se na Guerra da Coréia: impedir a expansão do comunismo
    O atual presidente do Vietnã, Trần Đại Quang, que exerce o cargo desde abril de 2016
    Assim como as Coréias, o Vietnã era uma nação igualmente dividida: havia a República Democrática do Vietnã ao norte – de orientação política comunista – e a República do Vietnã ao sul, verdadeiramente democrática, e com um modelo voltado para a economia de mercado. Assim como o envolvimento dos Estados Unidos foi crucial para impedir que a Coréia do Norte tomasse a Coréia do Sul e unificasse as duas nações debaixo de um totalitário e tirânico regime comunista, a República do Vietnã, ao sul, precisava igualmente do auxílio americano para dar uma resposta bélica à altura para os invasores comunistas do norte. Infelizmente, a atribulada e caótica política americana acabou comprometendo severamente o auxílio militar prestado ao Vietnã do sul. Em função da enorme repercussão do caso Watergate, o presidente americano Richard Nixon, favorável à intervenção americana no conflito vietnamita, teve que renunciar. Seu sucessor, Gerald Ford, igualmente favorável à contenção e a repressão do comunismo no sudeste asiático, queria dar continuidade ao esforço de guerra. No entanto, em votação no congresso, a maioria optou pela retirada das Forças Armadas no Vietnã. Sem auxílio dos Estados Unidos, a República do Vietnã não tinha como ganhar a guerra. Os comunistas do norte invariavelmente venceram o conflito e unificaram o país. Posteriormente, implantaram o comunismo em toda a nação, e, como consequência, o hostil e totalitário regime de partido único passou a reger e a comandar a vida de todos os vietnamitas. 

    Invariavelmente, a agenda governamental de coletivização e estatização levou à economia ao colapso, o que obrigou o governo a adotar políticas de mercado e a estimular a livre iniciativa. No entanto, o planejamento e o controle estatal continuam sendo um inexorável princípio governamental, que vê nas possibilidades do progresso econômico a principal plataforma para o desenvolvimento pleno de uma sociedade socialista no futuro.
    Hồ Chí Minh, Primeiro Ministro e Presidente da República Democrática do Vietnã. Revolucionário comunista em torno do qual se construiu um elaborado culto de personalidade
    Ainda que pretensões capitalistas tenham relaxado o regime ostensivamente tirânico e ditatorial de Hồ Chí Minh, que morreu em 1969 – portanto, antes da guerra terminar –, liberdades plenas, como as interpretamos em sociedades ocidentais, não são uma realidade para o vietnamita comum, onde há uma tácita e frívola proibição implícita quanto ao seu envolvimento em questões de caráter governamental. O Partido Comunista exerce controle pleno sobre todas as atividades políticas que ocorrem em território nacional, e apenas organizações autorizadas pelo partido podem contestar eleições. Direitos humanos são uma questão polêmica e controversa no Vietnã, cujo governo tende a ignorar o assunto, e a violar direitos civis, quando indivíduos praticam atividades “subversivas” contrárias aos interesses do estado, como por exemplo expressar uma opinião considerada politicamente nociva. Atualmente, existem aproximadamente cento e sessenta prisioneiros políticos no Vietnã, privados de sua liberdade por contestarem legitimamente os abusos e as arbitrariedades praticadas pelo governo. Liberdade de associação e liberdade de imprensa permanecem sendo questões igualmente delicadas. 
    Ativistas fazem protesto em nome de prisioneiros políticos e religiosos do Vietnã, nos Estados Unidos, ao lado da Casa Branca
    É verdade que comparado aos demais regimes comunistas, o Vietnã – atualmente –, não está entre os mais agressivos e opressores, sendo hoje muito mais condescendente e leniente para com sua população do que foi no passado, quando morticínios, campanhas de extermínio, assassinatos de opositores e execução de camponeses eram realizados de forma corriqueira, e encarados com normalidade. No entanto, o abrandamento do governo com relação às políticas de repressão ocorreu em conjunção com o fracasso de suas políticas econômicas, que quase levaram o país ao derradeiro colapso, e mataram de fome milhares de cidadãos e camponeses. Sem opções, depois de décadas na ruína de uma miséria progressiva e sistemática, e de uma intensa diáspora de milhares de vietnamitas desesperados para escapar da opressão e da escassez do comunismo, o governo percebeu que, para “ressuscitar” a nação, teriam que adotar políticas econômicas mais autônomas e flexíveis, com uma ampla percepção de mercado. E pensar que todos os horrores que o regime comunista infligiu aos vietnamitas poderiam ter sido evitados. Sendo um modelo que não é baseado em produtividade, mas em trabalho compulsório com cotas redistributivas, o comunismo, aonde quer que seja implantado, tem sempre a mesma inevitável conclusão: o colapso da economia e o empobrecimento generalizado da população. No final das contas, a economia de mercado acaba sendo o único recurso viável para resgatar um país das cinzas da miséria, da pobreza e da escassez. A liberdade para empreender – algo que é considerado uma heresia no comunismo – não apenas promove a produtividade, a circulação de riquezas, e a troca de valores agregados, mas resgata a própria percepção de propósito, realização e felicidade, indispensáveis para qualquer ser humano.



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