Bruno Mendonça também perde e judô brasileiro passa em branco pelo segundo dia consecutivo
| A técnica da equipe brasileira também não segurou a emoção - foto: IVO GONZALEZ |
LONDRES - Uma decisão terrivelmente dolorosa, mas justa. Após deixar o tatame do Excel Centre inconsolável, por ter sido desclassificada em sua segunda luta, com base nas imagens de vídeo, a peso leve Rafaela Silva (até 57kg) chorou tudo o que podia na área de aquecimento, junto com a técnica Rosicleia Campos. Aos poucos, foi se dando conta do erro que havia cometido no combate contra a húngara Hedvig Karakas e que lhe custara o adeus ao sonho de ganhar uma medalha olímpica, à qual era apontada como favorita.
Revelada num dos núcleos do Instituto Reação, do ex-judoca Flávio Canto e do mestre Geraldo Bernardes, a menina da Cidade de Deus, de apenas 20 anos, terceira no ranking mundial, admitiu seu equívoco e prometeu voltar ainda mais forte na Rio-2016. A exemplo de ontem, hoje também foi um dia de frustração para o judô brasileiro, que estreara com duas medalhas - o ouro de Sarah Menezes e o bronze de Felipe Kitadai, entre os ligeiros. Além de Rafaela, o paulista Bruno Mendonça (até 73kg) foi eliminado em sua segunda luta, contra o holandês Dex Elmont.
- Eu senti que ela estava descendo e pus a mão na perna dela. Infelizmente, cometi um erro. Foi minha primeira Olimpíada e agora isso serve de exemplo. Fiquei muito triste porque sei que tinha condição de chegar à medalha. Agora, é pensar em 2016. O que aconteceu aqui é página virada.
O diretor-técnico da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), Ney Wilson, reconheceu o acerto da arbitragem e explicou a punição dada a Rafaela. A brasileira realizou o golpe e os árbitros chegaram a marcar um wazari a favor de Rafaela. Mas a mesa, com base no vídeo, ordenou que a arbitragem cancelasse o golpe e punisse Rafaela com o hanso, a eliminação do judô.
- Ela usou a técnica mais clássica do Kata Otoshi, que teve a catada de perna excluída em 2009 pela Federação Internacional de Judô. Para a Rosicleia, que estava encoberta, na hora não deu para ver. Mas nós que estávamos do outro lado percebemos no ato - afirmou. - A dor que ela sente é de que sabe que a culpa foi dela própria, não da eficiência da adversária ou algo do tipo. É isso que fez com que ela sofresse tanto. Agora, o importante é absorver essa dor em 24h, no máximo, e seguir em frente.
Ele admitiu que, diante da enorme comoção causada pelo choro de Rafaela, sua primeira reação foi pedir que um integrante da comissão técnica tirasse do Excel Centre os pesos meio-médios Leandro Guilheiro (até 81kg) e Mariana Silva (até 63kg).
- Minha preocupação foi tirá-los logo daqui, porque todo esse envolvimento não é bom, na véspera da luta.
Sobre os tropeços nos dois últimos dias, ele disse que a meta de quatro medalhas estabelecida pela CBJ também levou em conta o fato de surpresas desagradáveis como a de hoje.
- Temos bastante munição para acertar alguns tiros. Houve quem falasse que a gente ganharia sete medalhas. Até poderia ser, mas Olimpíada é feita de erros e acertos. O Kitadai se superou e buscou um bronze que não estava cotado. Em contrapartida, a Rafaela era uma aposta que acabou não subindo ao pódio.
Rafaela Silva fez sua primeira luta, contra a alemã Miryam Roper. Uma entrada falsa da alemã pôs a brasileira em vantagem, com um yuko. A 1m20s do fim, mais um yuko para Rafaela, que venceu sem problemas. Bruno Mendonça também venceu na estreia, imobilizando Yannick Uwase, de Ruanda, com menos de um minuto. Contra o holandês, atual vice-campeão mundial, ele não conseguiu encaixar um golpe sequer e acabou sendo punido com dois shidos, por falta de combatividade, perdendo a luta por um yuko.
- Não posso falar mal da arbitragem, porque meu papel era conseguir o ippon ou pontuar na luta e não consegui - resignou-se.
O Comitê Organizador dos Jogos, a pedido do COB, confirmou hoje que fará a troca da medalha de bronze de Kitadai. Ele quebrara o suporte para o cordão ao deixar a medalha cair no banheiro.
Este é o terceiro dia de competições da modalidade, e o Brasil conquistou duas medalhas, ambas na categoria ligeiro, no primeiro dia. Sarah Menezes levou o ouro inédito entre as mulheres, e Felipe Kitadai ficou com o bronze no masculino. No segundo dia, Leandro Cunha e Érika Miranda acabaram derrotados na primeira luta.
Fonte: OGlobo
Por: Ary Cunha