CAMPO GRANDE (MS),

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    17/04/2020

    PANDEMIA| País tem mais de 8.200 profissionais da saúde afastados em meio à crise

    O Brasil tem 490.859 médicos em atividade, segundo o Conselho Federal de Medicina

    ©Reuters
    Ao menos 8.265 profissionais de saúde em todo o país estão afastados de suas funções em meio à pandemia do novo coronavírus. Esses funcionários precisaram deixar o trabalho porque apresentaram sintomas da doença ou porque fazem parte de algum grupo de risco.

    O levantamento foi feito pela reportagem com consultas a secretarias estaduais e municipais de saúde (no caso das capitais), conselhos de medicina e enfermagem e fundações hospitalares. Os dados foram tabulados até a tarde desta quinta-feira (16).

    O Brasil tem 490.859 médicos em atividade, segundo o Conselho Federal de Medicina; não existem dados, no entanto, sobre o total de profissionais da área da saúde, contando enfermeiros, técnicos, maqueiros e outros, no país.

    O número de profissionais afastados é ainda maior, já que não foi possível obter registros de alguns estados, como São Paulo, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Goiás. Já o Ministério da Saúde respondeu que esses dados ainda não foram contabilizados nas unidades federais.Profissionais da saúde apontam, desde o início da disseminação do vírus no país, que a insuficiência de mão-de-obra será um dos principais problemas no atendimento aos doentes. A dificuldade se agrava na medida em que os próprios médicos e enfermeiros acabam infectados e são obrigados a deixar seus postos de trabalho.Como não há EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) em número suficiente, funcionários estão mais expostos ao risco de contaminação.

    O problema já foi levado à Justiça por sindicatos e defensorias, que tentam obter os insumos junto aos estados, municípios e União.Na capital paulista, segundo a Secretaria Municipal da Saúde, a rede municipal de saúde soma 80.880 funcionários.

    Até esta quarta-feira (16), 3.865, ou 4,8% do total, estão afastados, sendo 532 com diagnóstico de Covid-19 e 3.333 com síndrome respiratória aguda grave; 11 profissionais morreram.A secretaria estadual de saúde de São Paulo não informou o total de profissionais da área que estão afastados.Na rede municipal do Rio, 768 profissionais estão afastados com sintomas respiratórios ou por fazer parte de grupo de risco. Eles representam 6,3% de toda a força de trabalho na rede, que soma 12.154 funcionários.

    Na rede estadual, 493 deixaram o trabalho, com sintomas e/ou confirmação da infecção pelo coronavírus. O número corresponde a 2,5% dos profissionais que atuam nas emergências e UPAs estaduais.O Ministério da Saúde não informou à reportagem a quantidade de profissionais afastados nos hospitais federais do Rio. Uma enfermeira do Hospital Federal Cardoso Fontes, Chris Gerardo, afirma que mais de 20 funcionários da emergência, contando com ela, tiveram teste positivo para o vírus. Com sintomas como febre, coriza e tosse, Chris recebeu o resultado positivo na segunda-feira (13). Ela estava afastada desde o dia 7. A enfermeira afirma que, no início da disseminação da doença, a Comissão de Infecção Hospitalar da unidade desestimulou o uso permanente das máscaras cirúrgicas. "Disseram que a gente estava causando pânico, desperdiçando material." Ela lembra que a limitação de espaço físico na emergência dificulta a manutenção da distância necessária para reduzir o risco de infecção. "Não tem condição de cumprir medida de segurança de espaço. Uma maca de 70 cm fica parada em um corredor de 2 m. Já passo encostando na maca", diz.

    Em nota, a direção do hospital afirma que adotou todos os protocolos do Ministério da Saúde e da OMS para o atendimento dos casos de coronavírus na unidade. Segundo a direção, os funcionários trabalham com todos os equipamentos de proteção necessários.No Distrito Federal, cerca de 700 profissionais estão afastados por terem tido contato com infectados ou por apresentar sintomas de gripe.

    A secretaria de Saúde informou que ainda fará a testagem para o coronavírus nestes funcionários.Depois de São Paulo, Rio e Distrito Federal, os estados que reúnem o maior número de profissionais afastados são Mato Grosso, Acre, Minas Gerais, Pernambuco, Ceará, Santa Catarina e Bahia.No Mato Grosso, a secretaria de estado de saúde contabilizou 600 afastamentos, incluindo profissionais com sintomas do vírus e aqueles que fazem parte de grupos de risco.

    Até a última semana, 13 tiveram testes positivos para o coronavírus.No Acre, 423 funcionários deixaram o trabalho por orientação da Secretaria de Estado de Saúde. Vinte tiveram testes positivos e o restante foi afastado por apresentar comorbidades. O número representa 7,3% do total de profissionais da saúde no estado, o que levou o governo a recorrer a 63 contratações emergenciais.

    O número de profissionais da saúde contaminados em Pernambuco chama a atenção. São 425 os funcionários que tiveram testes positivos, da rede pública e privada, o que corresponde a 33% de todos os casos no estado. O governo afirma que o número é maior do que nos outros estados porque Pernambuco foi a primeira unidade da federação a obrigar a testagem de todos os profissionais de saúde que apresentem sintomas da doença.

    Em outras regiões, médicos e enfermeiros alertam que têm encontrado dificuldades para serem testados para o vírus.Já em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, 164 funcionários estão afastados enquanto aguardam o resultado do teste. Outros 21 foram comprovadamente contaminados. Na Fundação Hospital do Estado de Minas Gerais, 122 deixaram suas posições. Desses, 16 tiveram teste positivo.

    No Ceará, 137 profissionais deixaram suas funções temporariamente. Desses, 28 tiveram teste positivo para o vírus. Na rede estadual e municipal de Santa Catarina, 137 também foram afastados com sintomas e/ou confirmação da doença.

    Já na Bahia, nas redes estadual, municipal e privada, 77 funcionários foram infectados. Em Ipiaú, cidade de 45 mil habitantes do sul do estado, foram registrados 12 casos do novo coronavírus. Destes, 11 são de funcionários do Hospital Geral gerido pelo governo da Bahia. Foram contaminados médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem e maqueiros. O primeiro caso foi identificado no dia 27 de março. Desde então, outros funcionários passaram a sentir sintomas como tosse, febre e perda de olfato e paladar. Dos 11 profissionais que registraram o vírus, 10 tiveram sintomas leves e cumprem quarentena em casa. Apenas um registrou o quadro mais grave e precisou ser internado.A pós uma investigação epidemiológica, o hospital descobriu que o vírus foi transmitido por uma paciente assintomática que chegou à unidade de saúde com suspeita de infarto. Profissionais que tiveram contato com essa paciente acabaram sendo infectados.

    O diretor do hospital Alexandro Miranda afirma que o afastamento dos funcionários acabou alterando a rotina do hospital, que teve que adotar um plano de contingência: "O impacto foi considerável. Todo profissional do nosso quadro é importante", afirma. O hospital adotou medidas como a sanitização da área interna e externa em dias alternados. Funcionários que estão em serviço têm a temperatura medida todos dias. Também são realizados hemogramas para identificar indícios de infecções. Mesmo com a quarentena e medidas preventivas, funcionários do hospital afirmaram à reportagem que têm sido estigmatizados e até criticados por parte da população por causa da concentração de casos entre profissionais da saúde. O número de casos de coronavírus em Ipiaú, contudo, pode ser maior, já que profissionais de saúde e pacientes com sintomas graves têm prioridade nos testes.

    NAOM



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