Campo Grande (MS),

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    05/10/2018

    Economia mundial corre risco de outra crise financeira, diz FMI

    Desregulação dos mercados e bolha imobiliária na China são fatores que preocupam entidade internacional 

    ©Divulgação
    A economia mundial corre o risco de enfrentar outra crise financeira pela incapacidade dos governos e de agências reguladoras em realizar todas as reformas necessárias para proteger o sistema de imprudências, alertou neste mês o Fundo Monetário Internacional (FMI) com a publicação do documento “Global Financial Stability” (Estabilidade Financeira Global”). 

    Com os níveis de débitos globais já acima daqueles da época da última crise, em 2008, a ameaça que permanece é que partes desreguladas do sistema financeiro poderiam desencadear um novo pânico mundial. 

    De acordo com a entidade, muito foi feito para reforçar a reservas dos bancos nos últimos dez anos e para aumentar as restrições sobre o setor financeiro, mas os "riscos tendem a aumentar durante as épocas boas, assim como no período atual de taxas de juros baixas e volatilidade moderada, e esses riscos podem sempre migrar para novas áreas", publicou, adicionando ainda que "o mundo deve permanecer vigilante para esses eventos imprevistos". 

    O crescimento da bolha imobiliária chinesa é outro fator que, apesar de não constar no relatório do FMI, preocupa economistas ao redor do globo. Os preços de imóveis e de investimentos em propriedades na China devem crescer mais do que esperado neste ano, fenômeno causado pelo contínuo crescimento das principais cidades do país que, como consequência, atraem novos compradores para um mercado ainda pouco regulado. 

    Cada leilão de imóveis na China aumenta um pouco mais o valor das propriedades. A expectativa é que os preços cresçam cerca de 5% esse ano e 3,3% em 2019, de acordo com uma análise de 16 economistas publicada pela agência de notícias Reuters. 

    Um aumento dramático em empréstimos pelos denominados shadow banks da China e a falha de impor restrições sobre companhias de seguros e gestores de ativos que lidam com trilhões de dólares de fundos são apontados pelo FMI como as causas das preocupações. 

    O crescimento de bancos globais, como o estadunidense JP Morgan e o chinês Industrial and Commercial Bank of China, em uma escala para além do que foi visto em 2008 -- levando ao medo de que eles sejam grandes buracos de fundos --, também foi registrado pelo radar da entidade internacional. 

    O alerta do documento publicado pelo FMI ecoa preocupações similares de que a complacência entre reguladores e uma reação contra acordos internacionais, especialmente da administração de Donald Trump, nos EUA, tenha enfraquecido os esforços de se preparar uma nova crise. 

    O ex-primeiro ministro britânico Gordon Brown disse no mês passado que a economia mundial está "caminhando sonâmbula para uma crise futura" e que os riscos não estão sendo manejados, porque o mundo "está sem liderança". 

    A chefe do FMI, Christine Lagarde, também admitiu que está preocupada com o fato do valor total dos débitos globais, tanto no setor público como no privado, ter disparado em 60% na última década, ou seja, desde a crise financeira de 2008. Ela disse que o acúmulo de reservas fez os governos de países em desenvolvimento e empresas mais vulneráveis às altas taxas de juros dos EUA, o que poderia desencadear uma fuga de fundos e desestabilizar suas economias. "Isso deveria servir como um alerta", vociferou. 

    O FMI ainda afirmou que o desenvolvimento de plataformas de comércio digitais e de novas moedas digitais, como o bitcoin, além de outras empresas de tecnologias financeiras, foi muito rápido. "Apesar dos seus benefícios potenciais, nosso conhecimento sobre os riscos possíveis e como eles devem atuar ainda está em desenvolvimento. O aumento dos riscos em cibersegurança desafia as instituições, as infraestruturas e os supervisores financeiros", diz o documento. 

    "Esses desenvolvimentos deveriam atuar como uma lembrança de que o sistema financeiro está sempre evoluindo, e os reguladores e supervisores devem continuar vigilantes com essa evolução e prontos para agir se necessário", completou. 

    Em outra análise, publicada anualmente pelo FMI, a entidade alertou que "grandes desafios surgem para a economia global prevenir uma segunda Grande Depressão", em referência à quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929. O imenso crescimento do endividamento de empresas e governo em taxas de juros baixas não foi revertido em altos níveis de pesquisas e desenvolvimento ou em investimentos gerais em infraestrutura. 

    Essa tendência, desde o colapso do banco estadunidense Lehman Brothers, que desencadeou a última crise financeira global, limitou o crescimento potencial de todos os países, e não somente daqueles que sofreram mais em 2008. Ela ainda deixou a economia global enfraquecida, especialmente quando os alertas sobre uma nova crise surgem no horizonte. 

    "A sequência de choques e responsabilidades políticas que seguiram à falência do Lehman Brothers foi levada para a economia mundial, em que a média geral de endividamento em relação ao PIB ficou em 52%, sendo que era 36% antes da crise", afirmou o documento do FMI. 

    "Os relatórios dos bancos centrais, particularmente em economias avançadas, são exemplos do tamanho que eles tinham antes da crise. Mercados emergentes e economias em desenvolvimento agora contam por 60% do PIB global em trocas -- o que, comparado com os 44% na década antes da crise, reflete em parte uma fraca recuperação de economias avançadas", diz outro trecho. 

    Como muitas instituições, o FMI ainda disse que os crescentes níveis de desigualdade têm um impacto negativo sobre o investimento e a produtividade, à medida que grupos mais ricos decidem guardar seus recursos do que investi-los em partes produtivas da economia. Sem uma expansão em investimentos, as economias tendem a seguir vulneráveis aos abalos financeiros. 

    ASSECOM



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