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    domingo, 12 de novembro de 2017

    Temer e Gilmar cometeram 'desvarios', diz ex-procurador

    O ex-procurador da República Marcello Miller, que é investigado na CPI do JBS © Divulgação
    O ex-procurador Marcello Miller afirmou em um e-mail para um colega que Michel Temer e Gilmar Mendes têm cometido "desvarios" ao falar de sua participação nas negociações da delação premiada da JBS.

    Na mensagem, Miller ainda rebateu outras acusações que vem sofrendo e disse que "jamais deu dinheiro para agente público", nem para um "guarda de trânsito".

    O presidente da República e o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) afirmam em linhas gerais que o ex-procurador foi um dos principais responsáveis pela colaboração dos executivos da empresa, que eles consideram ter sido montada com produção ilegal de provas.

    Miller é suspeito de ter advogado para a JBS quando ainda tinha cargo no Ministério Público Federal.

    Por esse motivo, em setembro, o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot pediu a suspensão de benefícios para delatores.

    A Folha teve acesso à mensagem de Miller, que está nos arquivos secretos da CPI da JBS. A comissão quebrou o sigilo do e-mail do ex-procurador.

    "A despeito dos desvarios do Temer e do Gilmar, nunca, obviamente, atuei dos dois lados (no meu tempo da Lava Jato, não havia nada de JBS por lá; eu deixei o GT [grupo de trabalho da Lava Jato] em julho do ano passado e, depois de sair, não discuti nada sobre esse caso com a Lava Jato, e sim –mesmo assim levemente– com a FT Greenfield [força-tarefa que investiga fraudes em fundos de pensão], na PRDF [Procuradoria da República do Distrito Federal], onde nunca atuei, nem sequer como itinerante)", escreveu o ex-procurador.

    O e-mail foi enviado para um amigo, em agosto, que lhe pediu dicas de leitura sobre compliance [sistema interno de controle para coibir, identificar e também punir eventuais atos de corrupção que venham a ser praticados por funcionários].

    O tema é uma de suas especialidades. Após fazer as sugestões, ele se explicou ao colega mesmo sem ter sido perguntado, em um "PS" (post scriptum).

    "Jamais dei dinheiro para agente público algum, seja o guarda de trânsito, seja o procurador-geral da República. Tudo isso é verificável e você, ou qualquer outro ex-colega pode tirar qualquer dúvida comigo, diretamente. Não hesite em ligar."

    O segundo trecho da mensagem responde a acusações feitas por Michel Temer.

    Em discurso no fim de junho, o presidente insinuou que Janot recebeu dinheiro por meio de Miller na delação premiada da JBS.

    "Talvez os milhões de honorários recebidos não fossem apenas ao assessor de confiança [Miller], mas eu tenho responsabilidade e não farei ilações. Tenho a mais absoluta convicção de que não posso denunciar sem provas", afirmou o peemedebista na ocasião.

    SOFRIMENTO

    Gilmar, por sua vez, disse já algumas vezes que Janot "escamoteava" a participação de Miller nas negociações da delação de Joesley Batista.

    Em outros e-mails obtidos pela Folha, Miller escreve estar sofrendo com a situação.

    "É com alegria e gratidão que recebo sua mensagem, nunca imaginei estar enfrentando o que estou tendo que enfrentar, é sempre bom ouvir alguém com sua acuidade", escreveu o ex-procurador, ao responder a um dos amigos que lhe enviaram palavras de solidariedade –ele tem recebido uma série de mensagens de apoio.

    Em e-mail de 20 de setembro, por exemplo, um colega lhe oferece ajuda.

    "Escrevo para saber como você está e se precisa de algo que eu possa ajudar".

    O ex-procurador agradece, diz que vai ligar de volta e afirma: "Estou –dentro do possível– bem".

    Até hoje Miller não deu entrevista e só tem se manifestado por meio de sua assessoria de imprensa.

    A quebra do sigilo ainda mostra que ele tem se dedicado a escrever a defesa para as investigações de que é alvo –no Ministério Público, na Polícia Federal e na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

    O presidente Michel Temer não quis se manifestar. O ministro Gilmar Mendes não respondeu.

    MILLER ABDICOU DE INVESTIMENTOS

    Marcello Miller deixou de fazer investimentos no banco Original depois de ter seu nome envolvido nas polêmicas da delação premiada da JBS.

    O Original faz parte do grupo J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista.

    Em e-mails que a Folha teve acesso, que estão na CPI da JBS no Congresso, Miller conversa rotineiramente com corretores para ter orientações das melhores opções para investimentos.

    Em uma das trocas de mensagem, em agosto, sua mulher lhe encaminha um recado de uma consultora afirmando que um dos investimentos da família estava vencendo. Manda como sugestão letras de crédito no banco Original.

    Miller responde em seguida: "Não, bonitona. O banco Original é da J&F. Sugiro abrir conta na XP e ver com o Zé".

    O ex-procurador é suspeito de ter atuado na delação da JBS quando ainda não tinha deixado o cargo no Ministério Público. A CPI pediu a quebra do sigilo bancário de Miller.

    Em um e-mail em julho, logo após anunciar sua saída do escritório em que trabalhou por apenas cerca de 120 dias, o ex-procurador faz referência a um dinheiro que entraria em sua conta, bimestralmente, nos próximos 18 meses: R$ 1,6 milhão.

    Em depoimento na PGR (Procuradoria-Geral da República), Miller afirmou que acertou um valor de R$ 1 milhão para se afastar.

    Fonte: Folha de S.Paulo
    Por: CAMILA MATTOSO / RANIER BRAGON - DE BRASÍLIA


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