Campo Grande (MS),

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    terça-feira, 3 de outubro de 2017

    Um fim de semana de muita emoção

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    No censo de 2010, o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, perguntou aos entrevistados se eles possuíam algum tipo de deficiência. 23,9% responderam que sim. Esse percentual representa mais de 45 milhões de pessoas no Brasil. 

    Em Mato Grosso do Sul esse número é de 525.979 pessoas, ou seja, 21,6% da população Sul Mato-grossense. Destes, mais de 150 mil pessoas possuem alguma deficiência motora. Uma dessas pessoas é a personagem que inspira esse release.

    Andresa Lima tem 36 anos e aos 12 perdeu a perna esquerda em conseqüência de um câncer ósseo. A cirurgia extrema retirou 100% de sua perna, o que a impossibilitou de usar uma prótese. Desde então ela faz uso de muletas para se locomover. Ela tem até uma coleção delas.
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    Mas as dificuldades transformaram Andresa em uma pessoa que olha para as dificuldades, não como simples obstáculos, mas como desafios a serem superados. Ela enxerga neles uma oportunidade de experimentar a vida de forma ainda mais intensa.

    Foi assim que ela, sem se deixar abater, formou-se em Gestão em Marketing, especializou-se em Coach Executivo, atuando hoje Coach e consultora de carreira. Trabalha também como gestora de uma grande empresa de turismo do estado.

    Com esse espírito de nunca deixar sua deficiência ser um obstáculo e sim uma oportunidade de provar que sempre é possível superar os desafios impostos pela vida, que ela tem buscado no esporte de aventura desafios cada vez maiores.

    Seu espírito aventureiro sempre despertou nela o desejo de praticar tais esportes. Porém se sucesso, até agora. Já tentou voar de parapente, mas em função de sua deficiência foi recusada pelos instrutores. Tentou esquiar na neve, mas devido à falta de equipamentos mais adaptados levou vários tombos, os quais lhe renderam e ainda rendem muitas risadas. 

    No ultimo domingo (01/10) Andresa teve a oportunidade ingressar nesse universo de adrenalina e emoção que até alguns anos atrás era exclusivo de pessoas que não possuíam nenhum tipo de deficiência.
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    Apesar de existirem diversas pesquisas sobre a inclusão de pessoas com deficiência nos esportes de aventura e seus benefícios, de existirem diversos movimentos lutando por essa inclusão, e até mesmo tendo o Ministério do Turismo criado um programa chamado Turismo Acessível cujo objetivo é “promover a inclusão social e o acesso de pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida à atividade turística”, a realidade que se apresenta ainda é de segregação.

    Por um lado, por falta de conhecimento sobre a natureza destas deficiências, por outro, por falta de interesse comercial neste público, uma vez que para recebê-los sempre será necessário realizar adaptações estruturais e comportamentais dos empreendedores do turismo.

    Essa falta de interesse parece ser ainda maior quando o assunto são os esportes de aventura, que por sua essência envolve um elemento central, o risco. 

    No entanto, muitos operadores do turismo de aventura, se esquecem que a pessoa com deficiência é um cidadão pleno de direitos e deveres, e dentre seus direitos, garantidos pela constituição, está o direito ao lazer. 

    Cabe então a esses operadores do turismo de aventura, buscar conhecimento sobre as particularidades de cada uma das deficiências, suas reais limitações e suas possibilidades de inclusão nas atividades de aventura.

    Em 2005, o Ministério do Turismo, criou o Aventura Segura. Um programa que visa estimular empresários do segmento a implantar recursos de acessibilidade em seus empreendimentos.

    Mas voltemos a nossa personagem. Recusada em suas primeiras tentativas de praticar esportes de aventura, Andresa não desistiu do sonho de se aventurar. 

    Numa dessas curvas que a vida dá eu Claudio Benites da Silva, Acadêmico do último ano de Educação Física da UFMS, que desde 2015 vem pesquisando a inclusão de pessoas com deficiência nos esportes de aventura, conheci a Andresa e em uma rápida conversa a convidei para fazer um Rapel na Cachoeira do Inferninho aqui mesmo em Campo Grande.

    Hoje eu integro a equipe da Trilha Extrema Turismo e Aventura e juntos temos aberto “as portas” da aventura para este público e não perderíamos a chance de realizar o sonho da Andresa e ainda reforçar tudo aquilo que as pesquisa Brasil a fora vem afirmando. A natureza é para todos, e os esportes de aventura também.

    Confesso que essa foi nossa (minha e da Trilha Extrema) primeira experiência, nos esportes de aventura, com uma pessoa amputada. No entanto não foi nossa primeira experiência com pessoas com deficiência. 

    Desde 2015 estudando a inclusão nos esportes de aventura, havia, até o momento, me concentrado principalmente na inclusão de Deficientes Visuais nestes esportes, tendo inclusive desenvolvido um projeto que já levou 7 adultos para fazer rapel, também na cachoeira do inferninho, 01 para saltar de paraquedas e 02 para saltar de Bungee Jumping.

    Neste domingo, 01 de outubro de 2017, Andresa encarou os 30 metros de altura da Cachoeira do Inferninho e levou suas muletas para tomar um delicioso banho pendurada por uma corda enquanto a adrenalina tomava conta de suas veias. Ao final do Rapel, um novo desafio se apresentou a Andresa. Deslocar-se em meio a trilha para retornar ao topo da cachoeira. 

    Cansativo sim, mas nada desestimulante. O cansaço que tomou conta de Andresa depois de vencer 30 metros de rapel, 200 metros de trilha em terreno acidentado e ter que escalar as raízes de uma enorme figueira, só encheram Andresa de uma emoção que sempre deixa um gostinho de quero mais no corpo e na alma. E lá se foi Andresa para sua segunda descida, desta fez em uma tirolesa montada na cachoeira que a fez passear por entre as árvores do local e depois ter que subir tudo de novo.

    Foi sem dúvidas, nas palavras dela, “a maior emoção da sua vida”. 

    Vejamos se ela dirá a mesma coisa depois de ter saltado de Paraquedas. Andresa ganhou uma cortesia da Pantanal Paraquedismo para participar do evento que ocorre entre os dias 10, 11 e 12 deste mês, o Pantanal Radical que ira se realizar em uma Arena montada no Shopping Bosque dos Ipês.

    Em tempo, divulgamos que, neste mesmo domingo no qual Andressa superou seus limites no rapel, ela não foi a única. Uma outra equipe esteve na Cachoeira do Inferninho e levou um jovem cadeirante para a mesma aventura e conto com o apoio da equipe Trilha Extrema durante essa aventura.

    PANTANAL RADICAL

    Nos dias 10, 11 e 12 de outubro, na arena montada no Shopping Bosque dos Ipês, será realizada a 2ª edição do Pantanal Radical. Evento que reunirá diversas modalidades de aventura em um único lugar. Haverá Salto de Paraquedas, Bungee Jumping, Sobrevôo de helicóptero por Campo Grande, Vôo de balão (cativo), além de outras atrações do próprio shopping. 

    Nesta Ocasião, os organizadores do Pantanal Radical, continuando uma parceira muito importante em prol da inclusão de pessoas com deficiência nos esportes de aventura, receberão um grupo de pessoas que provarão que a aventura é para todos. 

    Será um grupo de aproximadamente 15 pessoas, todas com algum tipo de deficiência. Dentre elas teremos alguns aventureiros de carteirinha e outros que provarão pela primeira vez da emoção que só os esportes de aventura podem proporcionar.

    Vejamos o histórico de alguns deles.

    Valdir Lustosa, deficiente visual, 43 anos, já praticou rapel, escalada, saltou de paraquedas em 2016, bungee jumping em agosto deste ano e desta vez fará um sobrevôo de helicóptero por campo Grande e um vôo de balão. Valdir este se especializando em aventuras aéreas. 

    Josiane Pereira, deficiente visual, 33 anos, já praticou rapel, escalada, saltou de bungee jumping em agosto deste ano junto com o Valdir e agora será a vez dela de encarar um salto de paraquedas.

    Eneir Soares e Waldirene Silva, também deficientes visual, terão sua primeira experiência com esportes aéreos. Irão encarar o salto de bungee jumping. Eneir já praticou rapel.

    Andresa Lima, nossa personagem principal deste release, acaba de encarar um rapel e já vai embarcar em sua nova aventura saltando de paraquedas.

    INTEGRAÇÃO

    A novidade maior este ano é que haverá uma integração entre diversos projetos que atendem pessoas com deficiência.

    Teremos convidados do Programa Escolar de Formação de Atletas e Desenvolvimento Esportivo da FUNDESPORTE, dirigido pelo professor Daniel Sena, na escola Manoel Bonifácio onde são treinados atletas do atletismo com e sem deficiência.

    Teremos também atletas da paracanoagem treinados pelo prof Thiago Constantino, no Parque das Nações Indígenas.

    Outro grupo especial será o Eficientes sem Limites. Um grupo que se formou recentemente e que também busca introduzir pessoas com deficiências nas atividades de aventura junto à natureza.

    A ORIGEM DE TUDO

    A ideia geral surgiu em 2004, quando este que vos escreve praticava um rapel noturno na cachoeira do inferninho e em meio a escuridão surgiu um questionamento: Como seria para um deficiente visual, praticar rapel? Quais as sensações e emoções?

    Estas perguntas ficaram guardadas até o ano de 2015 quando, de volta à universidade, e orientado pela profª. Drª Marina Salerno iniciou uma pesquisa sobre a inclusão das pessoas com deficiência visual nos esportes de aventura. Em Setembro de 2016, um grupo formado por acadêmicos do curso de Educação Física da UFMS, a empresa Trilha Extrema e 07 deficientes visuais daram inicio a esta jornada aqui em Campo Grande. Essa experiência serviu de base para o meu TCC no curso de Educação Física na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. 

    Em 2017 as possibilidades foram se apresentando e novas atividades se incorporando a ideia inicial. Veio o Paraquedismo, o Bungee Jumping, o Rapel da Andresa e junto, a experiência com novas deficiências e agora, dia 10 de outubro fecharemos o ano com muito aventura e inclusão.
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    Por: Claudio Benites 


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