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    segunda-feira, 16 de outubro de 2017

    OPINIÃO| A Venezuela e o deliberado silêncio da esquerda brasileira

    Podemos especular se Nicolás Maduro pretendia tornar-se ditador desde o momento em que foi eleito presidente © Divulgação
    Que a situação atual na Venezuela tem mostrado ser uma espécie de tabu para a esquerda brasileira, isso não é novidade nenhuma. Muito pelo contrário. Tornou-se raríssimo algum socialista mencionar o país limítrofe ao estado de Roraima, que recebe diariamente milhares de venezuelanos desesperados para fugir do seu país. Convenientemente, ao que parece, ao menos para militantes esquerdistas ardorosos e devotados, a Venezuela convenientemente deixou de existir. E é perfeitamente plausível compreender porque razões os ativistas de esquerda evitam e fogem do debate tão ostensivamente. Isso os obrigaria a rever todas as políticas que eles tão abertamente defendem, admitir que elas não funcionam, e abandonar o socialismo. Eles seriam obrigados a fazer uso de elementos como lógica e racionalidade para avaliar a ideologia política que tão apaixonadamente defendem. Consequentemente, se veriam forçados a encarar o mundo real, compreendê-lo, e invariavelmente, se tivessem o mínimo de caráter, teriam de abandonar o mundo de fantasias que tão perenemente habitam. E que pode ser explicitado de maneira catedrática: políticas produtivas dão certo, políticas redistributivas não, pois elas são, em sua essência, além de imorais, parasitárias. Podem funcionar no início, por um curto período de tempo, enquanto existe capital para gerar produtividade. Mas depois, inevitavelmente, haverá estagnação e retrocesso. A partir deste ponto, tudo o que existirá é a intensificação da miséria e da escassez. 
    Hugo Chávez foi o político que deu início à implementação do socialismo na Venezuela © Divulgação
    É claro que tudo era muito diferente nos períodos “áureos” de Hugo Chávez. O presidente venezuelano era considerado o novo guru do socialismo latino-americano, sendo amplamente celebrado pela esquerda global como uma unanimidade, no que dizia respeito à implementação de uma alternativa mais “viável”, “salutar” e “humana” ao capitalismo “opressor” e “demoníaco”. O que estas pessoas, que tão diligentemente elogiavam Chávez – e dentre estas poderíamos citar até mesmo americanos notórios, que paradoxalmente nunca ousaram abdicar do conforto da América capitalista, como o celebrado acadêmico Noam Chomsky, que teve um de seus livros recomendado por Chávez em uma conferência das Nações Unidas, e o ator e diretor hollywoodiano Sean Pean, que confraternizou com Chávez em diversas ocasiões – convenientemente nunca levaram em consideração, estava o fato de que, no princípio, quando recém fora implantado, o socialismo estava “dando certo” em função do maior commodity a impulsionar a economia venezuelana, o petróleo.

    Quando Chávez morreu e Nicolás Maduro assumiu o seu lugar, a promessa de uma nação socialista igualitária e desenvolvida intensificou-se. A esquerda brasileira elogiava, aplaudia e bradava entusiasticamente seu apoio à Venezuela, em especial militantes e representantes de partidos políticos como PT e PSOL. Em 2010, passou a ser preferível ignorar que a Venezuela começara a sofrer de drástica e severa escassez de alimentos, que se intensificaria de forma caótica e desesperadora nos anos subsequentes. Neste período, tornou-se mais conveniente fingir que tudo continuava bem, e que a revolução socialista bolivariana era uma utopia que, apesar de alguns “contratempos”, começava a concretizar-se. 

    No entanto, a partir de 2015 e 2016, quando a situação da Venezuela passou de caótica para aflitivamente catastrófica, ficou cada vez mais difícil para a esquerda brasileira difundir e sustentar o seu mundo de fantasias. Continuar apoiando abertamente o regime de Nicolás Maduro, que, aos poucos, revelou-se tirânico e autoritário, tornou-se uma apologia da brutalidade.

    Conforme Maduro mostrava-se cada vez mais ditatorial e intransigente, apoiá-lo passou a ser uma espécie de suicídio político. Ao implementar um regime opressivo, antidemocrático, sórdido e agressivo, que não tolera qualquer oposição, Maduro revelou-se um autocrata violento obcecado pelo poder. Com diversas medidas e reformas inconstitucionais para auferir ainda mais poder político sobre si, o ditador venezuelano demonstrou não ficar atrás de qualquer tirano comunista. Muito pelo contrário, está seguindo fielmente os passos de seus predecessores, como o seu adorado Fidel Castro. 

    Atualmente, o discurso da esquerda com relação à Venezuela mudou radicalmente, em comparação ao que costumava ser alguns anos trás. Hoje, vai do mais constrangido silêncio a comentários hipócritas que censuram à nossa “nefasta intromissão” em assuntos políticos de outros países. Ora, quão conveniente! Não era intromissão quando o socialismo estava “dando certo” na época de Hugo Chávez? Naquele período era permitido apoiar e aplaudir o socialismo. Mas agora não é auspicioso “intrometer-se” nos assuntos políticos de outro país. Quão conveniente. Em não raras ocasiões, nós pessoas normais, que desfrutam da plenitude de suas faculdades mentais, ainda temos que ouvir aquela pérfida e maledicente desculpa, que tem por objetivo nos ensinar que o que ocorre hoje na Venezuela não é o “verdadeiro socialismo”. Não há no mundo colocação mais hilariante. Afinal de contas, é sempre a mesma desculpa. É só o socialismo dar errado – sempre deu e sempre dará –, que subitamente somos informados de que tal “experiência política” nunca foi representativa do “verdadeiro socialismo”. 

    Por incrível que pareça, na contramão do silêncio de alguns, existem não poucos militantes dentre a esquerda brasileira que apoiam o regime tirânico, corrosivo, opressivo e brutal de Nicolás Maduro, onde 93% da população foi reduzida a mais impensável pobreza, tendo que revirar caminhões de lixo em busca de restos de alimentos para sobreviver. A precariedade intensificou-se de tal forma que hoje é normal matar cachorros de rua para comer, ou matar algum indivíduo para roubar o seu diminuto saco de pães, conquistado depois de árduas horas de espera na interminável fila de algum mercado estatal. Medicamentos são praticamente inexistentes, e a condição de precariedade dos hospitais os torna completamente inviáveis até mesmo para os procedimentos médicos mais simplórios. 

    O caos da Venezuela tem um único culpado, e este chama-se socialismo, um sistema sórdido, gerador de irremediável precariedade e escassez, que é uma das mais efetivas e consistentes máquinas de matar criadas na história da humanidade. 



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