Campo Grande (MS),

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    17/08/2017

    Mitos sobre a calagem do solo

    Pesquisa desenvolvida pela Embrapa Agropecuária Oeste esclarece alguns mitos e verdades sobre a calagem 

    © Divulgação
    O plantio de soja no Mato Grosso do Sul deve ter início no dia 1º de outubro, de acordo com o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC). E o mês de agosto é tradicionalmente um momento oportuno para os agricultores se dedicarem ao manejo da fertilidade do solo, por meio da aplicação de calcário e gesso agrícola. 

    A calagem é fundamental para os solos naturalmente ácidos, que é uma característica dos solos tropicais. A tomada de decisão para a correção da acidez do solo deve ser embasada nos resultados de análises de solo, feitas em laboratório credenciado, que indicarão o tipo (calcítico ou dolomítico) e a quantidade adequada de calcário a ser aplicado em cada talhão. 

    Apesar de ser uma prática corriqueira dos produtores rurais, alguns agricultores não têm obtido o retorno esperado quando o assunto é calagem. Para esclarecer algumas dúvidas quanto ao assunto, o pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, Carlos Hissao Kurihara esclarece alguns mitos e verdades sobre a calagem, que poderão contribuir com um resultado positivo em relação a esse tema. 

    1. A aplicação simultânea de calcário e gesso pode prejudicar a correção da acidez do solo?

    Mito. Experimentos conduzidos na Embrapa Agropecuária Oeste revelaram que é possível realizar a distribuição de gesso a lanço, associado à calagem, sem prejudicar a correção da acidez do solo. Esse é uma estratégia de manejo recomendada para se obter a melhoria do ambiente radicular em profundidade, reduzindo os impactos negativos dos veranicos e/ou estiagens. 

    O gesso agrícola é um subproduto da fabricação de ácido fosfórico, utilizado na produção dos fertilizantes fosfatados, constituído por cálcio, enxofre, fósforo e flúor. Este insumo tem sido utilizado como melhorador do ambiente radicular no perfil do solo, em doses que variam de 700 a 3.200 kg/ha, conforme a textura do solo. Aplicado superficialmente, sem a necessidade de incorporação com implementos agrícolas, o gesso é dissolvido facilmente, em condições adequadas de umidade. Como resultado desta dissolução, há liberação de sulfato, que tem a propriedade de se deslocar facilmente para as camadas mais profundas, carregando consigo nutrientes importantes para o crescimento das plantas, tais como o cálcio, o magnésio e o potássio. Desta forma, a aplicação de gesso permite a melhoria da fertilidade do solo (saturação por bases) em profundidade. Indiretamente, o aumento nos teores de cálcio, magnésio e potássio nas camadas subsuperficiais do solo, resulta na diminuição dos efeitos tóxicos do alumínio sobre as raízes das plantas. Isso ocorre porque a presença destes nutrientes, denominados catiônicos, faz com que o alumínio fique relativamente “diluído” nas fases líquida e sólida do solo (diminuição da saturação por alumínio). Como resultado, há maior crescimento do sistema radicular. Em teoria, se o gesso for aplicado junto com o calcário, poderia haver diminuição da velocidade de reação deste último, resultando no prolongamento do tempo necessário para que este insumo pudesse ter efeito sobre a correção da acidez. Por esta razão, existiam indicações para que o gesso fosse distribuído somente alguns meses após a calagem, para haver tempo suficiente para que o corretivo se dissolvesse no solo, na ausência do gesso, e conseguisse neutralizar os componentes da acidez. Contudo, diante da falta de informações acerca da magnitude da interferência do gesso na solubilidade do calcário, quando estes insumos são aplicados de forma conjunta, o estudo de viabilidade de aplicação simultânea foi realizado. Os resultados obtidos, por meio de experimento conduzido na Embrapa Agropecuária Oeste, indicaram que a aplicação conjunta com gesso, mesmo em dose elevada (até 7 ton/ha), não prejudicou a reatividade do calcário, avaliada em termos de elevação do pH e neutralização do alumínio, independentemente da textura do solo. 

    2. Para calcular a quantidade de calcário utilizado na calagem, devo considerar apenas o valor da saturação por bases, representada por V%?

    Mito. É preciso considerar também o Poder Relativo de Neutralização Total (PRNT) e a profundidade desejada de incorporação de corretivo no solo. Um dos critérios mais utilizados para se definir a quantidade de calcário a ser aplicado é a saturação por bases, que vem a ser a proporção na qual o complexo de adsorção de um solo está saturado por cálcio, magnésio e potássio. Em suma, a saturação por bases, representada por V%, nada mais é do que a percentagem das cargas negativas que um determinado solo possui em pH 7,0 (também denominado de capacidade de troca de cátions, ou simplesmente, CTC potencial) e que está ligada aos cátions básicos. Por este critério, a partir dos resultados da análise química realizada em uma amostra de solo representativa do talhão, estima-se a quantidade de calcário necessária para se elevar a saturação por bases a um valor considerado ideal, normalmente 60%; porém, este valor pode variar, em função da tolerância da espécie vegetal a ser cultivada, aos efeitos da acidez.

    Muitos produtores rurais, e mesmo técnicos da assistência, comumente questionam a razão pela qual a aplicação de calcário em dose estimada por este critério, quase sempre resulta na correção apenas parcial da acidez do solo; em outras palavras, a saturação por bases efetivamente obtida, na maioria das vezes é inferior àquela que foi almejada.

    Essa aparente discrepância é resultante de um conjunto de fatores que costumam ocorrer rotineiramente nas propriedades agrícolas, em maior ou menor magnitude, e que podem passar despercebido pelo produtor rural. A dose de calcário estimada pelo critério da saturação por bases é estabelecida para um corretivo de acidez com PRNT padrão de 100% e a incorporação em uma profundidade de 20 cm. O PRNT é um índice cujo valor depende dos teores de cátions neutralizantes (ou seja, os teores de CaO e MgO) e do grau de moagem do produto. Por esta razão, quando se utiliza um calcário com valor de PRNT menor ou maior do que o padrão 100%, torna-se necessário aumentar ou diminuir proporcionalmente a quantidade a ser aplicada, respectivamente. Da mesma forma, se por algum motivo o produtor rural vai realizar a incorporação do calcário em profundidade maior do que 20 cm, deve-se aumentar a dose de forma proporcional ao volume de solo que será corrigido. Estes dois fatores muitas vezes são ignorados em função da sua aparente banalidade. Porém, ao se aplicar um calcário com PRNT de 85%, e incorporá-lo em uma camada de 25 cm, a quantidade do corretivo deve ser aumentada em 47%. 

    3. Armazenar o calcário a granel, no próprio campo, pode trazer algum problema em relação à qualidade do produto? 

    Mito. O calcário armazenado a granel, no próprio campo, não terá diferença em sua qualidade química, comparativamente ao calcário ensacado, armazenado no galpão. Contudo, é importante que o agricultor esteja ciente de que o insumo armazenado a granel pode conter umidade em torno de 10 a 15% e o uso de calcário úmido pode resultar em equívoco grosseiro na correção da acidez do solo. Em geral, não há tempo para se proceder a determinação da umidade do produto, razão pela qual acaba se aplicando uma dose efetivamente menor do que o necessário. E como os erros são cumulativos, se o agricultor utilizar um calcário com 85% de PRNT e 15% de umidade, e se pretenda corrigir a camada de 25 cm de profundidade, a quantidade de corretivo deve ser acrescida em 73%.

    4. Aplicação de calcário é tão simples, que qualquer um pode fazer? 

    Mito. Para o bom êxito da calagem e obtenção do potencial completo de correção da acidez do solo, alguns fatores devem ser observados. O processo passa pela necessidade obrigatória de realizar uma correta e qualificada análise de solo, com atenção ao procedimento de coleta de amostras, análise em laboratórios de qualidade, interpretação correta do nível de fertilidade; regulagem adequada do distribuidor de calcário em função do valor de PRNT, da profundidade de incorporação e da umidade do produto e uniformidade na distribuição.

    Fonte: ASSECOM
    Por: Christiane Congro Comas


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