Campo Grande (MS),

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    quarta-feira, 30 de novembro de 2016

    Quando o Brasil vai sair da recessão?


    Os dados do 3º trimestre decepcionaram e a recuperação da economia deverá ser mais lenta do que se esperava. Para analistas, a crise fiscal, o desemprego alto, o endividamento de famílias e empresas e os juros altos retardam o fim da recessão. Leia abaixo entrevistas com economistas sobre o cenário econômico atual e perspectivas para 2017 e 2018.

    'É PIOR DO QUE SE IMAGINAVA'

    O economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, passou a projetar crescimento zero da economia no ano que vem diante da piora nas perspectivas para o mercado de trabalho e para o investimento. Segundo ele, é preciso entender que a recuperação será “muito lenta”, pois o cenário não está favorável e “é pior do que se imaginava”.
    José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fato (Foto: Divulgação)

    Diferentemente da média das projeções do mercado, você está prevendo estagnação em 2017. Há um otimismo exagerado?

    Não é o otimismo. Eu diria que o pessimismo está contido. Agora, eu garanto que é uma questão de tempo. 

    Por que a retomada será mais lenta do que se imaginava?

    Se olharmos o coração de tudo, o mercado de trabalho e o investimento, o cenário claramente não é favorável e é pior do que se imaginava. Até a metade do ano, a produção industrial dava sinal de que tinha parado de piorar, mas no 3º trimestre isso não se confirmou. E quando se observa a ocupação isso fica mais claro ainda. Até outro dia se dizia que o mercado de trabalho pararia de piorar do 1º para o 2º trimestre de 2017. Eu acho que vai piorar até metade do ano que vem. Agora está caindo tanto a população com carteira assinada quanto a que estava se virando com negócio próprio. 

    Além do desemprego, o que mais tem segurado o PIB?

    Outro fator é o investimento. Empresas como Petrobras e Eletrobras estão revendo para baixo os seus programas. Sobre o tal do Programa de Parcerias de Investimentos [PPI, programa de concessões e privatizações], a minha premissa é que não vai ter efeito relevante no ano que vem. E tem ainda o alto endividamento e ociosidade das empresas. 

    O Brasil corre o risco de não sair da recessão em 2017?

    Primeiro, vai parar de piorar, depois vai estabilizar, e só depois começa a melhorar. Dá para dizer que um zero a zero em 2017 é um pezinho fora da recessão, mas acho que vamos ter um cenário muito instável ainda. 

    Quais as principais incertezas e riscos à frente? 

    No ano que vem vamos ter, em fevereiro, mudança na presidência da Câmara e do Senado. Imagina o ambiente! E, no meio disso, a discussão da reforma da Previdência. As notícias que chegam é que não sai até a metade do ano, que era o cenário de antes. Se não for aprovada antes de setembro, o fim de ano ficará com muita incerteza, porque no dia seguinte já será campanha [corrida presidencial]. Ou seja, num ambiente como esse é muito difícil imaginar que alguém irá assumir um compromisso importante de longo prazo relevante para a economia. 

    'CONSUMO PERDE GÁS'

    O economista e ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega vê a deterioração do nível de desemprego, a renda em queda e o baixo crédito como os principais obstáculos para a retomada. Ele se coloca, no entanto, ao lado daqueles que acreditam que o país irá sair da recessão em 2017. Maílson alerta, entretanto, que um novo ciclo de investimento dificilmente ocorrerá antes de 2019.
    Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda do governo de José Sarney (Foto: Reprodução/TV Globo)

    Os dados de atividade do 3º trimestre decepcionaram e o governo já revisou para baixo a sua projeção para o PIB de 2017. O que aconteceu?

    O quadro é de uma mudança de expectativas para pior em relação à recuperação da economia. O crédito não recuperou o quanto se imaginava e as famílias, por conta do desemprego e do alto endividamento, ainda não se animaram a tomar crédito. Sem crédito e com a renda caindo, o consumo perde gás. 

    Quando vamos sair da recessão?

    Esse processo de recessão é o pior em mais de 100 anos. Saídas de recessão deste tipo são sempre mais difícil de se prever. Tudo indica que, ao contrário do que se imaginava, ainda pode ter alguma recessão no 4º trimestre e, dependendo das expectativas que se formem em relação ao governo de Donald Trump, isso também poderá afetar o 1º trimestre de 2017. Mas acredito que a possibilidade de retomada em 2017 é muito elevada. 

    Quais os principais riscos e incertezas para 2017?

    O primeiro é o risco Trump. Existe uma expectativa, da qual eu não compartilho, de que ele vai fazer um governo que estará longe das suas promessas de campanha. No mínimo, a redução dos impostos e o aumento dos gastos em infraestrutura acredito que ele vai fazer. Isso irá trazer pressões inflacionárias e implicará em aumento dos juros nos Estados Unidos, o que pode dificultar a continuidade ou a intensidade no corte da Selic [taxa básica de juros] no Brasil. O segundo risco é a Lava Jato. A delação premiada da Odebrecht pode gerar problemas sérios no núcleo do governo, pelo menos isso é o que se fala. 

    Há um certo consenso de que a retomada será lenta. O que se pode esperar do pós-recessão?

    Essa recuperação é diferente das anteriores porque decorrerá de ocupação de capacidade ociosa da indústria e da força de trabalho. Não é uma recuperação gerada por um ciclo de investimento ou ganho de produtividade. Ocorre num mundo de baixo crescimento e com o risco de queda de preço de commodities. Não há uma recuperação de confiança suficiente para impulsionar um ciclo vigoroso de investimento no Brasil no curto prazo. Dificilmente acontecerá ainda no governo Temer. 

    'FICOU MAIS CONTURBADO'

    O economista-chefe da Gradual Investimento, André Perfeito, avalia que a economia ficará praticamente estagnada em 2017 e que a retomada só acontecerá de fato a partir de 2018 em razão da fraca demanda. Para ele, o principal mecanismo de estímulo para o crescimento deveria ser um corte maior na taxa de juros.
    André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimento (Foto: Divulgação)

    A recuperação está mais lenta do que o esperado?

    Está bem mais lenta. A nossa projeção inicial para o PIB do 3º trimestre era -0,3%. A confiança de consumidores e empresas melhorou, mas essa melhora se deu muito por conta da saída da presidente Dilma. Quando se pega o consumo das famílias, não vai subir porque o desemprego está em alto e a renda real está caindo. Já os empresários podem estar mais otimistas, mas a ociosidade da indústria nunca esteve tão alta. Todos os componentes da demanda apontam para queda e, no melhor das hipóteses, para estabilidade. 

    Quando vamos sair da recessão?

    Só em 2018. O mercado está falando de crescimento de 1% em 2017. Levando em conta o que a gente tombou no ano passado e neste, falar que crescer 1% em 2017 é recuperação é brincadeira. O mercado de trabalho só vai parar de piorar no segundo semestre do ano que vem. A taxa de desemprego pode até estar subindo menos agora, mas muito disso tem a ver com o desalento [desistir de procurar emprego]. 

    Você está entre aqueles que têm uma visão mais pessimista sobre os efeitos da PEC do teto de gastos na recuperação da economia. Por quê?

    A pergunta que tenho feito é: ‘De onde vai vir a demanda?” O ajuste fiscal em curso tem um caráter expansionista no curto prazo, e o governo vai continuar arrecadando pouco. A minha opinião sincera é que não precisava ter feito essa PEC, bastaria voltar à Lei da Responsabilidade Fiscal. Não precisava reinventar a roda. Não precisava criar uma amarra de 20 anos. Para a PEC funcionar e ajudar no PIB, só se injetar demanda na economia. Para isso, teria que cortar os juros de forma muito mais efetiva e muito mais forte, o que não estamos vendo o Banco Central querendo fazer. O BC está muito cauteloso porque quer esperar que o governo aprove as medidas fiscais. 

    O que mais poderia ser feito para estimular a economia então?

    Existe toda uma agenda de ordem microeconômica, mas a principal questão pra mim é se os juros vão cair no Brasil, pois não será do investidor estrangeiro que virá o incentivo. Com a vitória do Trump nos Estados Unidos o mundo ficou mais conturbado. Não sabemos o que ele vai fazer em termos de política comercial e ninguém vai meter a mão no bolso antes disso. 

    'NÃO HÁ SAÍDAS FÁCEIS'

    O economista e sócio da Inter.B Consultoria, Cláudio Frischtak, está entre os que acreditam numa retomada em 2017. Ele reconhece, entretanto, que a recuperação será mais lenta do que se imaginava e aponta como risco adicional as “emergências fiscais” que estão “pipocando estado por estado”.
    Cláudio Frischtak, sócio da Inter.B Consultoria (Foto: Divulgação)

    Quando o Brasil conseguirá sair da recessão?

    Apesar de todas as dificuldades, acreditamos que a economia irá parar de contrair no 4º trimestre e vamos começar a recuperação, ainda que lenta, no primeiro trimestre do ano que vem. Estamos até um pouco mais otimistas que o governo, achamos que o PIB vai ficar um pouco acima de 1% em 2017. Só não vai ser mais forte porque o mercado de trabalho ainda tem muita inércia. 

    Mas a recuperação está sendo mais lenta do que se imaginava há alguns meses?

    Acho que tanto o governo quanto os analistas tomaram um susto com o tamanho da crise fiscal. Piorou muito nos últimos 40 dias porque ficou claro que vai muito além do governo federal. Já se sabia que os estados estavam mal. Agora, uma coisa é saber, outra coisa é ver o tamanho do buraco. E o estado do Rio de Janeiro é só a ponta do iceberg da emergência fiscal. Ou seja, não podemos contar com a sustentação dos gastos de estados e municípios para evitar uma deterioração ainda maior do mercado de trabalho. A maior parte dos analistas foram pegos nesse contrapé, porque não temos condições de fazer política anticíclica [com estímulos para reativar a economia] neste momento. Isso foi uma novidade. 

    Houve então uma frustração de expectativas?

    Após a indicação de que haveria impeachment, houve um certo ânimo e os indicadores de expectativa ficaram muito positivos. Por outro lado, a atividade andava muito lentamente. A interpretação dos analistas é que essa brecha era normal e que isso se refletiria nas atividades mais para o final do ano. Acho que agora, e essa é a grande mudança, houve uma percepção de que essa brecha é maior do que se imaginava. Ou seja, a retomada vai demorar um pouco mais. Quem sustenta a economia é o consumo, e as famílias estão fragilizadas pela queda do nível de renda e pelo medo de perder o emprego. 

    E por que então você afirma estar otimista?

    Existe ao fim e ao cabo a possibilidade real do país sair melhor do que entrou nesse processo. O país continua com um potencial colossal, mas não há saídas fáceis. Precisamos enfrentar as reformas e compreender que o populismo é o caminho mais rápido de afundar a economia. Acho que existe um potencial de termos uma vacina antipopulista para os próximos anos, até porque se não tivermos o investimento não virá. 

    'TRUMP É O MAIOR RISCO'

    O economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, avalia que o país pode começar a sair da recessão a partir do 2º trimestre de 2017. Ele alerta, entretanto, que as empresas ainda vão demorar mais tempo para voltar a recontratar e que a vitória de Trump nos EUA pode representar um obstáculo adicional para a atração de investimentos estrangeiros.
    Alex Agostini, economista-chefe da agência de classificação de risco Austin Rating (Foto: Reprodução)

    Quando o Brasil conseguirá sair da recessão?

    O desempenho do PIB piorou no 3º trimestre, mas pelas nossas projeções, o país pode começar a sair da recessão a partir do 2º trimestre do ano que vem. Para 2017, revisamos nossa projeção para crescimento de 1,3%. Mas para quem caiu 8% em 2 anos, crescer 1% é nada. 

    A recuperação está sendo mais lenta do que se imaginava?

    A grande diferença dessa crise são os 12 milhões de desempregados. A crise foi tão profunda, essa perda de confiança foi tão profunda que acabou afetando mais o mercado de trabalho. Então, por mais que essa confiança esteja retornando, é muito mais de esperança do que de certeza. ‘As coisas parecem que estão melhorando, acho que ano que vem vou conseguir um emprego’ é diferente de ‘as coisas parecem que estão melhorando e eu vou voltar a consumir’. 

    E quais são os maiores riscos e incertezas no momento?

    O principal risco hoje é o efetivo governo Trump. Não só para o Brasil como para o mundo. Só a partir do momento em que ele sentar na cadeira e começar a dar as canetadas, vamos sentir melhor o impacto das mudanças que ele pretende adotar na economia global e qual o impacto disso no PIB brasileiro, porque precisamos do investimento internacional para dar um pouco mais de fôlego para a economia. Do lado doméstico, o risco é não conseguir fazer o ambiente fiscal entrar nos trilhos, mesmo com a aprovação da PEC de limite de gastos, e com isso continuar patinando e não conseguir acionar o botão do crescimento econômico. 

    E quais as perspectivas para a economia sob o governo Temer?

    Para 2017, estamos falando de um crescimento gerado em cima de um preenchimento de espaços vazios. Ou seja, ganho de produtividade. As empresas farão os funcionários trabalharem mais horas antes de começar a contratar. A partir da consolidação desse cenário, a partir do segundo semestre de 2017, abre-se uma perspectiva muito positiva para 2018, caso o cenário internacional deixe, porque aí sim a confiança dos agentes econômicos estará reestabelecida e já bastante sólida, mas com um crescimento ainda puxado pelos investimentos privados. 

    'PIB DE 2017 SERÁ FRACO'

    Para a pesquisadora do IBRE/FGV Silvia Matos o Brasil ainda deverá começar 2017 em recessão e uma retomada mais clara só deve vir no 2º semestre. Ela alerta, entretanto, que a recuperação será um processo “lento e gradual” e que 2017 ainda será um ano de ajuste para governo, empresas e famílias.
    Silvia Matos, pesquisadora do IBRE/FGV e coordenadora técnica do Boletim Macro (Foto: Divulgação/FGV)

    Os números do 3º trimestre decepcionaram e sinalizam que a recessão pode durar mais do que se imaginava. O que aconteceu?

    A gente já esperava uma contração do PIB forte, mas veio mais forte ainda. E o 4º trimestre, ao que tudo indica, terá uma nova queda. Isso significa que há uma dificuldade muito grande de retomada e que a história está ficando pior. Temos um consumidor ainda muito endividado, um mercado de trabalho muito ruim e isso limita muito a capacidade de consumo das famílias. 

    O fundo do poço ainda não chegou?

    Em nenhum momento eu imaginei que o fundo do poço chegaria neste final de ano. Imaginávamos que seria alcançado no primeiro trimestre de 2017. Agora, a grande preocupação é que o fundo do poço poderia estar mais para meados de 2017, pois ainda não está claro que vamos crescer no 1º trimestre. 

    Essa será a recessão mais longa da história do país?

    Ainda há uma certa incerteza sobre o prolongamento. Pela nossa metodologia, vamos completar 11 trimestres de recessão no 4º trimestre [mesma duração da recessão de 89 a 92, a mais longa da história segundo o Ibre] e acho que pode chegar a 12. Para sair da recessão é preciso ter número positivos. Se ficar meio estagnado, com um crescimento muito baixo, pode demorar um pouco mais. 

    Qual são as perspectivas para 2017?

    O PIB de 2017 ainda virá fraco porque ainda vai ser um ano de ajuste para governo, empresas e famílias. Acho que a retomada de fato, se tudo der certo, é mais para o 2º semestre. Talvez a boa notícia possa ser a inflação surpreender mais para baixo, o que permitiria que o Banco Central continue com uma política de redução da taxa de juros com mais segurança. 

    E de onde virá o gatilho para a retomada?

    É preciso perceber que o governo realmente vai conseguir restaurar a solvência fiscal, mesmo porque a PEC sozinha não resolve. Aí os juros podem cair mais, as empresas podem ficar menos endividadas e cria-se uma perspectiva de retomada. Mas isso é um processo demorado, esse é o ponto.



    Fonte: G1


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