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    domingo, 27 de novembro de 2016

    "Pelo Telefone", o primeiro samba da história faz hoje 100 anos

    Todos os anos, o Sambódromo do Rio de Janeiro recebe a maior demonstração da vitalidade do gênero musical oriundo de África que no Brasil ganhou novos ritmos | SÉRGIO MORAES/REUTERS

    O Rio festeja, sob grave crise econômica e social, o centenário do género que é a sua síntese. Um século de samba em que o ritmo transgressor e devasso se tornou a música oficial brasileira.

    Naquele tempo não era comum um batuqueiro negro atravessar as portas da secção dos direitos autorais do majestoso edifício da Biblioteca Nacional, um território de músicos eruditos, brancos de preferência. E muito menos ter a ousadia de pedir para registar como sua uma composição popular. Diz a lenda que o funcionário da biblioteca perguntou "mas música popular precisa de registo?", ao que Ernesto Maria dos Santos, mais conhecido como Donga e o herói desta história, terá respondido "sim, precisa, porque samba é igual a passarinho, é de quem pegar primeiro". Era dia 27 de novembro de 1916.

    Donga estava certo: o samba em causa chamava-se Pelo Telefone, tornou-se o maior êxito do Carnaval de 1917 e o precursor de uma longa linhagem de composições que consagrou milhares de artistas durante os cem anos seguintes. Mas o herói desta história é, de acordo com outras fontes, o vilão. Pelo Telefone é afinal filho de pai incerto, composto numa roda de samba no terreiro de candomblé de Tia Ciata, uma das tias baianas que migrou da Bahia para a Pequena África, bairro da então capital brasileira Rio de Janeiro, fugindo da repressão do governo baiano às religiões africanas.



    Como, já no Rio, Tia Ciata, respeitada curandeira, sarara uma dor do presidente da República Wenceslau Brás, o seu quintal gozava de certa benevolência das autoridades, que perseguiam e reprimiam as outras rodas porque o samba era considerado um género musical lascivo, vulgar, sujo, condenável. Assim, em redor dela, Pixinguinha, João da Baiana, Sinhô, Heitor dos Prazeres, Caninha e outros pioneiros, como Donga, encontraram um abrigo para compor chorinhos, lundus, maxixes e tangos carnavalescos com relativa liberdade - e, de forma coletiva, o samba Pelo Telefone.

    "O Donga tem a percepção de que o samba está a entrar numa fase em que seria muito consumido, toma a dianteira e regista o Pelo Telefone sozinho para irritação dos outros", disse à rádio CBN o historiador Luiz Antonio Simas. Ou seja, o samba, que tanto haveria de a cantar nos cem anos seguintes, nasceu de uma malandragem carioca.

    Raiz angolana

    Claro que, da mesma forma que o samba está em maior ou menor grau na origem da bossa-nova, da música popular brasileira ou do pagode, também não nasceu de um estalar de dedos numa simples roda de batuques. Viajou em navios de escravos, centenas de anos antes, de África para a América do Sul, onde ganhou ao longo de séculos novas cores musicais e formas sociais diferentes, moldando-se ao crescimento de um povo culturalmente diverso, como o brasileiro. Do angolano semba, ritmo religioso que significa umbigada e é tido pela maioria dos pesquisadores como a sua raiz, virou samba. E daí samba canção, samba enredo, samba de partido alto, samba exaltação, entre outras variações ao gosto de cada um.

    "O samba tem mais de 100 anos mas é justo comemorá-lo em 2016 porque foi em 1916 que Pelo Telefone foi registado, é como uma criança que só vira gente depois de registada", concede Martinho da Vila, autor de uma versão de Pelo Telefone. "O samba é produto da nossa ancestralidade porque onde havia um batuque, havia um samba", acrescenta o sambista de 78 anos de vida e 50 de samba, em conversa com o site BOL.



    O êxito de Pelo Telefone no Carnaval de 1917 deu origem à criação de escolas de samba nos anos seguintes, com cada vez mais sambistas, que foram aos poucos rompendo barreiras e legitimando a cultura negra carioca e brasileira. Nos anos 1930, o presidente Getúlio Vargas eleva-o à condição de patrimônio e canção nacional, já Noel Rosa o havia transportado dos subúrbios miseráveis às classes média e alta do Rio de Janeiro e a luso-brasileira Carmen Miranda disseminado o novo ritmo pelo mundo, via Hollywood. Finalmente, o amém de ilustres como Antonio Carlos Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso, João Gilberto, Maria Bethânia, Gal Costa e tantos outros ao novo género ajudaram-no a crescer em respeitabilidade e audiência nas décadas seguintes.

    Crise no Rio

    O que não significa que o samba, que nasceu perseguido, não continue a sofrer ameaças, como lembra Nelson Sargento, presidente de honra da escola de samba mais popular do Rio, a Estação Primeira da Mangueira, e aos 92 anos uma lenda viva do género. "Há 40 anos houve uma invasão de música estrangeira, do bolero ao ieieié, e o samba balançou", lembra. "E agora não está muito diferente, investem muito nos ritmos que estão à volta do samba, é o samba reggae, o samba pop, o samba mais não sei quê..."

    Por falar em ameaças, o samba festeja 100 anos numa altura de convulsão económica e social no Rio de Janeiro: o governo decretou estado de emergência; os funcionários públicos estão com salários atrasados; escolas são ocupadas e hospitais fechados; Mariano Beltrame, o secretário de segurança que liderou as Unidades de Polícia Pacificadora nos morros, assumiu a derrota para o tráfico de droga; e os dois governadores mais carismáticos das últimas décadas, Anthony Garotinho e Sérgio Cabral, estão na prisão por fraude eleitoral e desvios multimilionários de dinheiro público. O Rio, o seu Carnaval e o samba têm sofrido com a crise, em forma de desinvestimento.

    Porém, o Rio, o seu Carnaval e o ritmo que é filho de Tia Ciata, de Donga, de Pixinguinha, de Cartola, de Noel Rosa e de tantos outros sobreviverão. Como escreveu Nelson Sargento num tema de 1978, "o samba, negro, forte e destemido, duramente perseguido na esquina, no botequim e no terreiro, agoniza mas não morre".




    Fonte: DN



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