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    terça-feira, 29 de novembro de 2016

    OPINIÃO| O que muda em Cuba com a morte de Fidel Castro

    Símbolo do comunismo na América Latina, ausência de Fidel amplia as possibilidades para Cuba

    O ditador cubano morreu sexta-feira, dia 25 de novembro

    Fidel Castro, o notório revolucionário marxista cubano, presidente afastado em função de problemas de saúde, morreu dia 25, aos noventa anos. Personalidade controversa do cenário político mundial, que dividia opiniões, o político cubano que se tornou um símbolo do comunismo no continente americano evidentemente veio a ser um líder venerado por milhões de leais entusiastas, sendo odiado por tantos outros. Considerado por muitos como um campeão da resistência imperialista americana, e o avatar de uma política igualitária crucial para o desenvolvimento de uma sociedade pautada pelos valores de um comunismo factual e prático, Fidel Castro tornou-se uma figura cercada de inusitadas polêmicas, especialmente porque ele nunca foi, de fato, tudo aquilo que a propaganda castrista difundiu a seu respeito. 

    Inegavelmente, os sicofantas, adoradores e entusiastas de Fidel passaram suas vidas inteiras negando os crimes perpetrados pelo regime. Debaixo de uma ótica política que sempre se esforçou em elaborar uma imagem impecável da diminuta ilha-nação, está abalizada uma ideologia responsável por difundir a ideia do “socialismo que deu certo”: um mundo maravilhoso, paradisíaco e resplandecente, que “comprova” a “farsa” do capitalismo e se impõe de forma corajosa diante do pérfido imperialismo americano. Mas como é de fato a nação que Fidel presidiu durante 47 anos, destituída de toda a propaganda política falaciosa que se alimentou do medo, da mentira, da coerção e da intimidação para perpetuar-se? 
     Governando Cuba com mão de ferro, Castro permaneceu 47 anos no poder, de 1959 a 2006

    A Cuba de Fidel Castro na verdade é uma mentira tão desmoralizante e uma farsa elaborada de formas tão ostensivamente hostis, que só é enganado pela propaganda castrista quem quer. A verdade que seus adoradores e simpatizantes recusam-se a ver é que o homem que eles tanto adoram em pouco ou nada seria diferente de outros ditadores sanguinários, egocêntricos e malévolos, como Stálin ou Adolf Hitler. Com um regime totalitário de caráter mais discreto e silencioso, o horror era propagado nas sombras. A verdade é que Cuba sempre foi um regime totalmente baseado em maquiar números e manipular dados para mostrar ao mundo o seu esplêndido e fantástico “desenvolvimento”, arraigado na fictícia determinação das possibilidades do socialismo, sempre tão atento para os seus princípios de infalibilidade, quando aplicados da “maneira correta”. Não obstante, invariavelmente a farsa caiu no escrutínio da “perniciosa” e “malévola” mídia ocidental, ao menos para aqueles que nunca se deixaram enganar pela farsa intolerável do suposto desenvolvimento socialista. A maneira como dados e informações são manipuladas em relatórios de transparência internacional demonstram não apenas o caráter pérfido do regime castrista, mas o fato de que, como todos os sistemas socialistas, ele está sempre ávido em parecer aquilo que não é. Recentemente, o sistema de saúde pública cubano, que foi desmascarado depois de uma reportagem da CNN supostamente ter demonstrado quão maravilhoso, pleno, soberbo e igualitário ele era, revelou também informações igualmente grotescas que mostraram porque o indicie de mortalidade infantil é tão [supostamente] baixo. Agências de notícia internacionais, estranhando os números incrivelmente irrisórios da mortalidade infantil em Cuba, inferior a de países realmente desenvolvidos, decidiram investigar melhor a razão por trás de números tão pequenos. Teria Cuba de fato descoberto como coibir de forma expressiva a morte de crianças e recém-nascidos? Não, esse nunca foi o caso. Estes dados deliberadamente ignoram o fato de que o aborto é legalizado em Cuba desde a segunda metade dos anos 1960, sendo uma prática comum entre mulheres de todas as faixas etárias: médicos expatriados cubanos relataram que eram obrigados a falsificar números em seus relatórios, sob ameaça de retaliação se não o fizessem. Bebês abortados, que deveriam ser contabilizados dentro dos índices de mortalidade infantil – em qualquer país –, evidentemente não entram para as estatísticas. Em 2012, 83.682 abortos foram relatados em Cuba. Em 2013, foram 84.373 (e não esqueçamos de levar em consideração à proporção deste para o número de habitantes da ilha, que atualmente conta com uma população pouco superior a onze milhões e duzentas mil pessoas). Aparentemente, o genocídio de nascituros é mais um dos segredos do sistema socialista para o desenvolvimento social. Não obstante, por mais horrenda que uma revelação dessas possa parecer, isso não passa de apenas um exemplo. Se teve uma coisa que o socialismo foi capaz de fazer muito bem, foi aprimorar a arte de envernizar realidades: afinal, nunca nada é o que parece ser. De maneira que é necessária uma descomunal ingenuidade para acreditar, de fato, em todas as “esplendorosas” conquistas e realizações que o sistema castrista afirma ter realizado. 

    O mito de Fidel Castro começou a consolidar-se com sua ascensão política: a resistência de Fidel ao imperialismo americano, e o subsequente embargo econômico que os Estados Unidos sancionou em relação ao “paraíso” socialista contribuíram em grande parte para tornarem Fidel um símbolo da resistência imperialista americana e um grande herói da causa socialista. A partir de então, isso seria tudo o que os seus simpatizantes passariam a ver e a disseminar a seu respeito.

    Um marxista-leninista por convicção, Fidel Castro ascendeu na política ao depor o então ditador Fulgencio Batista, que havia governado Cuba como presidente de 1940 a 1944. Desde o princípio um aliado dos soviéticos e um inimigo declarado dos Estados Unidos, auxiliando na consolidação de ditaduras em outros países, como Chile e Nicarágua, Fidel Castro transformou Cuba em um estado socialista, em todos os aspectos possíveis: o pluripartidarismo foi suprimido, inimigos do regime foram encarcerados ou executados, e todas as políticas implementadas nos setores sociais e econômicos da nação eram vigiados de perto pelo estado. 

    Em mais de quarenta anos no poder, as realizações de Fidel Castro estão no mesmo patamar que qualquer outro ditador. Tendo como uma de suas prioridades suprimir dissidentes políticos e inimigos do regime, e acima de tudo, perpetuar-se no poder, a visão de mundo ostensivamente simplória e inflexivelmente política de Fidel não apenas o tornaria um ditador cruel e arbitrário, como justificariam o seu total ostracismo da história. Tão verossímil quanto sua crueldade ditatorial, era o fato de milhares de cubanos só conseguirem vislumbrar para si próprios uma possibilidade real de futuro fora de Cuba. Durante o seu governo, mais de um milhão e trezentos mil cubanos fugiram da ilha para viver nos Estados Unidos.

    Uma reflexão profunda concernente à análise de alguns dados factuais sobre o regime castrista revelam que as competências da realidade não podem, de fato, ser assimiladas por qualquer pessoa: quem prefere viver nas ilusões disseminadas pelo regime – o que é um sintoma factual do socialismo, pois vive de ilusões difundidas por uma propaganda fantasiosa e irrealista, ao passo que é responsável pela disseminação de uma realidade grotesca e precária – irá continuar achando que Fidel Castro foi um valente e audacioso herói socialista. 
    Raúl Castro substituiu o irmão quando Fidel afastou-se da presidência, em 2006

    Cada vez mais ausente de assuntos governamentais desde 2006, Fidel foi progressivamente afastando-se da política em função de saúde precária. Seu irmão, Raúl Castro, assumiu o seu lugar na presidência. Ao que tudo indica, a saída de Fidel Castro da arena política pode representar o início de uma esperança para os cubanos. Seu irmão, que foi reeleito em 2013, anunciou que muito em breve pretende se aposentar da política, e não irá buscar reeleger-se em 2018. Ao que tudo indica, a consolidação da democracia pode mudar a perspectiva de Cuba, e fazer da ditadura castrista uma deplorável lembrança do passado. 

    A verdade é que a ausência de Fidel Castro pode mudar muita coisa. Evidentemente, especulações à parte, as atrocidades do regime castrista não poderão ser apagadas. Mas se um futuro promissor de fato se desenvolver sobre a pequena ilha-nação caribenha, sua construção pode transformar-se em uma promissora realidade. Evidentemente, qualquer coisa é melhor do que uma ditadura. Estar livre de Fidel já é um bom recomeço. 




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