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    terça-feira, 6 de setembro de 2016

    OPINIÃO| Morre Islam Karimov – Presidente perpétuo do Uzbequistão

     Islam Karimov foi o único presidente do Uzbequistão, ocupando o cargo por vinte e cinco anos, de 1º de Setembro de 1991 a 2 de Setembro de 2016. 

    Aos setenta e oito anos de idade, no dia 2 de Setembro, morreu em Tashkent Islam Abduganiyevich Karimov, presidente vitalício do Uzbequistão desde 1º de Setembro de 1991, que ocupava a presidência da nação desde 24 de março de 1990, quando o país era formalmente reconhecido pela nomenclatura de República Socialista Soviética Uzbeque, antes do período de independência formal que dilacerou a União Soviética, consequentemente consagrando à plena autonomia política todos os países que outrora compunham o infame e inexpugnável bloco socialista. 

    Como todos os países que nasceram das cinzas da extinta União Soviética, o Uzbequistão era um país conhecido por seu governo rígido, totalitário e opressivo, muito do qual pode ser diretamente atribuído ao caráter, à personalidade e às intervenções diretas de Islam Karimov, que com o passar do tempo tornou-se cada vez mais arbitrário, intransigente e intolerante, sendo progressivamente cada vez mais cruel, agressivo e hostil com todas as formas de oposição política que por ventura viessem a desafiar o seu direito ao poder. 

    Possivelmente um dos presidentes mais totalitários a existirem na região, Karimov manteve a própria filha, a ativista cultural Gulnara Karimova, e sua neta, em cárcere privado desde fevereiro de 2014, sendo ambas fortemente vigiadas por guardas e câmeras. Não obstante, é necessário salientar que as motivações para tal contingência podem ser bem mais escusas do que parecem à princípio: Gulnara Karimova enfrenta acusações de corrupção, em função de que muitos de seus empreendimentos aparentemente são mera fachada para diversos negócios ilícitos, e sua suposta prisão pode ser na verdade uma forma que Karimov encontrou de proteger sua filha, e assim evitar que ela enfrente as consequências de suas ações. Como o Uzbequistão é um país muito fechado, evidentemente toda e qualquer informação a respeito do que ocorre ali, que consegue ir para além de suas fronteiras, deve ser encarada com certo nível de dúvida e ceticismo.
    Conhecido por seu caráter totalitário, Karimov era intolerante e irredutível ao lidar com oposição política.   

    Não obstante, o teor totalitário do governo e do caráter de Karimov estão muito bem documentados. O massacre de Andijan, que ocorreu em maio de 2005, viu as forças nacionais de segurança abrirem fogo contra uma multidão de civis desarmados. Diversas fontes afirmaram que o massacre foi deflagrado por ordens diretas do presidente, nem um pouco disposto a tolerar protestos contra o seu governo. 

    Indubitavelmente, como não poderia deixar de ser, os maiores sintomas da repressão, tão comum aos países da região – alegadas violações aos direitos humanos e à liberdade de imprensa – foram e são – e provavelmente continuarão sendo – ostensivamente praticados no Uzbequistão. Tortura, assassinatos, sequestros, corrupção e censura são apenas algumas das muitas formas de crueldade e repressão violentas, atuando a serviço de um governo hostil, autocrático, brutal e agressivo, que buscava de forma obstinada única e exclusivamente a sua autopreservação. Um notório escândalo internacional relacionado ao Uzbequistão ocorreu quando Craig Murray, embaixador britânico, deliberadamente desmentiu relatórios oficiais britânicos e americanos, declarando tudo o que presenciara enquanto serviu no país. À época do ocorrido, 2002 a 2004, tanto o Reino Unido quanto os Estados Unidos adotaram uma política de tolerância com relação ao Uzbequistão, em função do país ter se tornado um grande aliado no combate ao terrorismo, tendo permitido a instalação de bases americanas em seu território. 

    Considerado por diversos veículos midiáticos ocidentais como um dos piores ditadores do mundo, Islam Karimov realmente não via limites quando o assunto era manter-se no poder. Apesar de não tolerar oposição popular, dificultar a vida de rivais políticos de forma ferrenha, vil e incisiva e exercer a censura de vários ângulos diferentes, como todas as demais antigas repúblicas soviéticas, havia a grande preocupação de dar a nação uma fachada de democracia. Periodicamente, eleições eram realizadas, sendo todas elas dúbias, farsescas e altamente questionáveis, para dizer o mínimo. Convenientemente alterando a constituição para servi-lo sempre que necessário, índices de aprovação popular de 88,1 % e 90,39% em diferentes eleições apenas lembram um outro teatrinho político de manipulação totalitária: a Bielorrússia de Alexander Lukashenko. Como todos estes países são farinha do mesmo saco, este é um caso de mais uma antiga república soviética completamente saturada pelos vícios, mazelas, idiossincrasias e deliberações do caráter totalitário socialista, que têm todo o seu pragmatismo governamental alicerçado ao frenesi de perpetuação no poder, sintoma profundamente arraigado à ideologia funesta da escola de pensamento político que contaminou à região. 

    A saúde de Islam Karimov era sigiloso assunto de estado, nunca discutido, abordado ou endereçado. Poucos dias antes de sua morte, profissionais da medicina de diversas nacionalidades foram consultados para a elaboração de um possível diagnóstico. A partir do dia 29 de agosto, começaram a circular pela mídia informações conflitantes, que ora informavam sobre sua morte, ora declaravam que o presidente estava se recuperando em seu leito hospitalar. Em uma espécie de pronunciamento semioficial, uma das filhas de Karimov, Lola Karimova-Tillyaeva, forneceu vagas informações concernentes ao estado de saúde de seu pai, pedindo que não especulassem a respeito, e implicitamente salientando a importância de se manter em sigilo absoluto a real condição do seu estado de saúde. Não obstante, Karimov veio a morrer no dia 2, sendo seu óbito confirmado no mesmo dia. 
    O Funeral de Karimov, que ocorreu no dia 3, contou com a presença de homens de estado e líderes políticos de diversos países da Ásia e do leste europeu.

    O funeral de Islam Karimov, como não poderia deixar de ser, teve honras nacionais, com inúmeros presidentes, primeiros-ministros e homens de estado de diversos países tendo comparecido à cerimônia. Não obstante, a morte de Karimov não significa necessariamente uma mudança de regime, tampouco aponta para o Uzbequistão um cenário onde se torna possível vislumbrar os alicerces da democracia. Embora ainda seja um pouco cedo para que se façam especulações, apenas o tempo dirá que caminho o país tomará em caráter político, e se é possível vislumbrar progresso, no que diz respeito à garantia de direitos individuais para a população. Outrossim, convém salientar que um indivíduo, apontado pela mídia ocidental como sendo um dos piores e mais truculentos ditadores contemporâneos, enfim morreu, e essa com certeza não é uma ocorrência irrelevante. No entanto, ainda é muito cedo para que se levantem os bastiões do otimismo, ou se comemore a glória de um futuro promissor, que pode, no final das contas, nunca chegar. Como a morte de um ditador não significa necessariamente uma mudança de regime, as incertezas permanecem. E como a sanguinolenta e contundente história do bloco socialista confirma, dissolver o totalitarismo no leste europeu é tão improvável quanto impossível. 


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