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    quarta-feira, 3 de agosto de 2016

    OPINIÃO | O que será dos Estados Unidos?

    A Stars and Stripes, bandeira americana, símbolo patriótico da nação. 

    Agora que Donald Trump é oficialmente candidato à presidência dos Estados Unidos, os americanos enfrentarão um insidioso e virulento dilema nacional, que com toda a certeza colocará à prova a determinação americana de incorporar, de forma genuína, a aguerrida autenticidade do seu espírito patriótico. Conhecido por ser um país plural, onde diversas raças, crenças, tribos, etnias, idiomas, religiões e civilizações se misturam, debaixo de um credo que apregoa liberdades individuais iguais para todos, estará a democracia e a igualdade de direitos – garantida pela atabalhoada constituição civil estadunidense – ameaçada, caso Donald Trump se torne presidente? 
    Donald Trump, bilionário americano, candidato à presidência dos Estados Unidos pelo Partido Republicano.

    Evidentemente, Donald Trump, sempre tão politicamente incorreto, e nem um pouco preocupado em agradar aqueles que o criticam, é, antes de tudo, um unilateral e inflexível bilionário americano, com um ego tão grande quanto o sistema solar, tão dispendioso quanto as nocivas e polêmicas galhardias de sua suntuosa companha presidencial, que vêm protagonizando comícios controversos, e despertando o furor do conservadorismo americano, para ambos os lados: o da discórdia e o da condescendência. 

    A verdade é que, nessas horas, sou grato por não ser estadunidense. Estamos falando de um homem que – caso venha a se tornar, definitivamente, o presidente dos Estados Unidos – irá dividir, despedaçar e segregar o país. E não se mantém uma nação com divisão, mas com integração. 

    O apelo de Trump está, antes de tudo, em sua intransigente e míope xenofobia, que têm por ambição combater os “virulentos” e “malévolos” estrangeiros, que, em sua opinião, são em grande parte responsáveis pela criminalidade e pela desestabilização do país. Mas seu maior triunfo, até o momento, está em suas surreais, ríspidas e indivisíveis medidas contra o terrorismo, que – em função de sua gigantesca e sempre tão desmesurada insensatez –, em sua simplória visão de mundo é simplesmente sinônimo de islamismo. Dessa forma, Trump têm por objetivo não apenas combater o terrorismo em si, mas o islamismo de forma integral e generalizada, já que sua colossal, esfuziante e hiperativa falta de inteligência o leva a pensar que ambos são a mesma coisa. Mesmo que pudéssemos supor, na ingênua desfaçatez de nossas especulações, que algum de seus assessores tenha informado a ele que – com aproximadamente 1,5 bilhão de adeptos no mundo inteiro – menos de 0,1% dos muçulmanos, ou melhor, dos indivíduos que afirmam ser muçulmanos – são de fato envolvidos em células ou organizações terroristas, Donald Trump é um homem tão intransigente, egocêntrico e orgulhoso, que nem sequer buscaria processar, digerir ou compreender esta informação, o que dirá agir de acordo com ela. 

    Então, agora, vêm a pergunta: com 20 anos de presença militar ativa no Afeganistão, quem de fato são os terroristas? 

    Como todo e qualquer candidato político, Trump não está nem um pouco preocupado em favorecer ou beneficiar a população, tampouco lutar pelos seus interesses. Buscando viabilizar uma política de elementos prioritários, em uma base estrutural mais heterodoxa, nos quais apenas os mesmos velhos interesses financeiros serão a alavanca constante da economia americana, enquanto uma coalizão de poderes sustenta sua base de influência, Donald Trump quer apenas o apoio popular de eleitores que possam legitimar sua arrogância presidencial, e certamente abandonará todo e qualquer vestígio de cumplicidade política, assim que isso se tornar conveniente. Oportunista, sendo o que chamam de político de ocasião, Trump é tão despreparado para ser presidente quanto um saco de cimento. E o fator mais preocupante para isso é que ele não está concorrendo à presidência de um país esquecido do leste europeu ou da Oceania, aquele que a maioria das pessoas nem sequer sabe que existe. Não, Donald Trump está concorrendo ao cargo de homem mais poderoso do mundo: o de presidente dos Estados Unidos da América, a grande superpotência mundial do mundo contemporâneo. E isso por si só não assusta tanto quanto saber que ele tem inúmeras legiões de leais apoiadores pelo país inteiro, mas nos darmos conta de como ele foi capaz de persuadir tais pessoas, e de como permitiram que ele chegasse aonde chegou é o que realmente faz desse acontecimento algo tão pérfido quanto sufocante. 
    Donald Trump discursa em um de seus comícios, cada vez mais controversos, que têm atraído manifestantes e opositores de suas políticas radicais.

    O discurso de Trump é particularmente apelativo para o conservadorismo americano. O seu lema, “Make America Great Again”, não traz em sua fachada apenas um discurso unilateral e grandiloquente, mas vícios profundamente arraigados à política americana, e aos seus sintomas confusos, inerentemente vazios, e ostensivamente difusos, que evocam um passado de glória – que nunca existiu – arregimentando ao presente possibilidades de um sacerdócio político estruturado em mazelas e malefícios, veiculados como uma persuasiva propaganda assertiva para deficientes mentais, que promete funcionar como a cura para quase todos – senão todos – os problemas da nação. Uma nação que – não esqueçamos – tendo dizimado aproximadamente vinte e cinco milhões de nativos americanos entre os séculos 16 e 19, é a mais genocida de toda a história humana. Sim, vamos fazer a América “Grande de Novo”. 

    Donald Trump é um homem inflexível, intransigente, dono da razão, que não suporta ser contrariado nunca, em nenhum momento. Cercado por bajuladores de toda a espécie, que adoram e elogiam tudo o que ele faz, e a todo o momento falam para ele o quanto ele é magnífico, audaz e maravilhoso, na verdade é a versão adulta de uma criança teimosa, que fica brava quando lhe tiram seus brinquedos. Governar uma nação é uma tarefa de incomensurável responsabilidade, e não é à toa que homens pequenos, colocados em uma posição tão grande, tendem a falhar. Governar é muito mais do que proferir discursos para uma multidão, proclamar promessas inatingíveis ou inexpugnáveis, insultar mexicanos, panamenhos e muçulmanos, e garantir monumental impecabilidade financeira e social a uma seleta elite caucasiana detentora de riquezas, monopólio e graduações em Princeton ou Stanford, que tira férias na Inglaterra ou no Caribe, e deve ser a todo custo mantida segura em uma redoma de vidro, completamente isolada em um mundo de perfeição artificial, livre das mazelas mundanas que afligem pessoas ordinárias e comuns, e do ofensivo convívio com indivíduos de estratos sociais inferiores. Isso basicamente é a América à la Donald Trump. 
    Manifestante é retirado de um comício de Donald Trump, após início de tumulto.

    Donald Trump já foi comparado a Adolf Hitler inúmeras vezes, especialmente por analistas e comentaristas políticos. Não obstante, ao contrário de Donald Trump, Adolf Hitler nunca foi um arauto da burrice, da vigorosa e extrema falta de inteligência, ou da impulsividade, e também não costumava fazer papel de imbecil em público. Não esqueçamos também que Adolf Hitler, ao contrário de Trump, não era um milionário, e portanto, teve que conquistar sua posição política, com esforço, diligência e mordacidade. Donald Trump, por outro lado, pôde comprar sua candidatura à presidência, bem como financiá-la. 

    Moral da história: não devemos nunca comparar um gênio do mal – Adolf Hitler – a Donald Trump, essa quixotesca versão do mal dos três patetas. Como ele ainda não se tornou presidente dos Estados Unidos, resta a esperança de racionalizar a cura, e esperar que os eleitores americanos caiam em si.


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