Campo Grande (MS),

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    segunda-feira, 22 de agosto de 2016

    Morre o jornalista Geneton Moraes Neto no Rio, aos 60 anos

    Repórter estava internado desde maio. Desde o começo dos anos 1980, o jornalista trabalhava na Globo.

    Geneton Moraes Neto tinha 60 anos (Foto: Reprodução GloboNews)

    O jornalista e escritor Geneton Moraes Neto morreu nesta segunda-feira (22) no Rio, aos 60 anos. Ele estava internado na Clínica São Vicente, na Gávea, Zona Sul da cidade, desde maio. Deixa viúva, duas filhas e netos.

    Com mais de 40 anos de carreira no jornalismo, Geneton era um apaixonado pelo exercício da reportagem, função que ele afirmava ser a "realmente importante" no jornalismo. Trabalhava na Globo desde o início dos anos de 1980. Foi editor do RJTV, editor-executivo e editor-chefe do Jornal da Globo, editor do Jornal Nacional, repórter e editor-chefe do Fantástico.

    "Todo profissional precisa de uma bandeira. Escolhi uma: fazer Jornalismo é produzir memória. De certa forma, é o que me move"
     Geneton Moraes Neto

    Desde 2006, produzia reportagens especiais para a GloboNews. Em agosto de 2009, estreou um blog no G1, que manteve atualizado até abril de 2016.

    Pernambucano, nasceu, como gostava de enfatizar, “numa sexta-feira 13 [de julho], num beco sem saída, numa cidade pobre da América do Sul: Recife”. Saiu do referido beco sem saída para ganhar o mundo fazendo jornalismo. Seus primeiros passos na profissão foi aos 13 anos de idade, escrevendo artigos amadores para o "Diário de Pernambuco” onde, poucos anos depois, conseguiu seu primeiro emprego.

    Geneton entrevistou seis presidentes da República, três astronautas que pisaram na Lua, os prêmios Nobel Desmond Tutu e Jimmy Carter, os dois militares que dispararam as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki, a mais jovem passageira do Titanic e o assassino de Martin Luther King, entre muitos outros personagens históricos.

    Geneton guardava as fitas brutas de todas as suas entrevistas. Parte delas ele enviava para o Centro de Documentação da Globo, outra guardava em casa.

    “Todo profissional precisa de uma bandeira. Escolhi uma: fazer Jornalismo é produzir memória. De certa forma, é o que me move”, afirmou o jornalista em depoimento ao Memória Globo.

    Além de reportagens, Geneton Moraes Neto publicou diversos livros, dentre eles “Hitler/Satalin: o Pacto Maldito”, “Nitroglicerina Pura”, “O Dossiê Drummond: a Última Entrevista do Poeta”, “Dossiê Brasil”, “Dossiê 50: os Onze Jogadores Revelam os Segredos da Maior Tragédia do Futebol Brasileiro”, “Dossiê Moscou, “Dossiê História: um repórter encontra personagens e testemunhas de grandes tragédias da história mundial” e “Dossiê Gabeira”.
    Geneton em entrevista a Carlos Heitor Cony para o ‘Dossiê GloboNews’ (Foto: Globo / Divulgação)

    O jornalista também produziu documentários como o “Canções do Exílio”, exibido no Canal Brasil, com depoimentos de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Mautner e Jards Macalé, sobre o período em que moraram em Londres, e “Garrafas ao Mar: a Víbora Manda Lembranças”, que reúne entrevistas que ele gravou nos 20 anos de convivência com o jornalista Joel Silveira, um dos maiores repórteres brasileiros.

    Em 2012, Geneton recebeu a Medalha João Ribeiro concedida anualmente pela Academia Brasileira de Letras (ABL) a personalidades que se destacam na área de cultura.

    Entrevista exibida no Fantástico com o escritor Ariano Suassuna em 2007

    Análise para o G1, com as perspectivas para 2016

    O que é jornalismo?

    Em 2010, Geneton Geneton conquistou o prêmio Embratel de jornalismo na categoria Televisão, com a série "Os Generais Falam", exibida no "Dossiê Globo News".

    O jornalista aproveitou o gancho, como se diz na gíria dos reporter, para divagar sobre a profissão e postou em seu blog no G1: "Pausa para um refresco ( ou: pequena carta aos que gastam sola de sapato fazendo Jornalismo)"

    Como homenagem, segue a íntegra do artigo:

    "Pausa para um refresco ( ou: pequena carta aos que gastam sola de sapato fazendo Jornalismo)

    Uma das máximas das redações diz que “jornalista não é notícia”.

    Mas, uma vez por ano, quando são anunciados os vencedores de prêmios jornalísticos, jornalistas mudam de lado por breves instantes: viram “notícia”.

    O locutor-que-vos-fala teve a honra de ser premiado, nesta quarta-feira, com o Prêmio Embratel de telejornalismo, pelas entrevistas com os generais Newton Cruz e Leônidas Pires Gonçalves sobre os bastidores do regime militar. As entrevistas foram ao ar na Globonews.

    Sou dos que acreditam que jornalista pode ser, também, uma espécie de arqueólogo - que revira o passado em busca de novidades. A contradição é apenas aparente: o passado pode nos surpreender com novidades,sim. Por que não?

    Um detalhe me chamou atenção e me deixou feliz ao inspecionar a lista de finalistas do Prêmio Embratel: o júri selecionou para a grande final, em várias categorias, uma série de reportagens que mergulhavam no passado em busca de luzes.

    Lá estavam reportagens sobre a guerrilha do Araguaia (O Estado de S.Paulo), uma série sobre "como a censura calou a música brasileira" (Correio Braziliense), os arquivos do ex-governador Miguel Arraes (Diário de Pernambuco) , "os espiões que viveram nas sombras dos anos de chumbo" (Zero Hora).

    Fiquei feliz ao ver premiadas reportagens que envolveram obviamente um grande esforço de investigação, como os “diários secretos” – uma equipe da Gazeta do Povo e da RPCTV denunciou um caminhão de irregularidades na Assembleia Legislativa do Paraná (os repórteres: James Alberti, Kátia Brembatti, Karlos Kohlbach, Gabriel Tabatcheik). Ou a denúncia do jornal O Estado de S.Paulo sobre os atos secretos baixados pelo Senado Federal – esta, a grande vencedora da noite. Os autores: Rosa Costa, Leandro Colon, Rodrigo Rangel. Ou a reportagem que provocou o cancelamento da prova do Enem (autores: Renata Cafardo e Sérgio Pompeu). Idem com as duas matérias de denúncia sobre o Festival de Corrupção que assolou o governo do Distrito Federal: uma reportagem de Matheus Leitão, Rodrigo Haidar, Érica Killingl, Lucas Ferras, Fred Raposo, Gustavo Gantois e Priscila Borges publicada pelo site IG e outra de Andrei Meireles,Marcelo Rocha e Murilo Ramos, na revista Época. Eu poderia citar todas as outras. Todas mereceram estar ali.Porque ninguém estava ali por acaso.

    Quando vi autores de reportagens deste calibre vibrando como se fossem iniciantes, pensei, aqui, com meus velhos botões: minha tribo é esta.

    Sou insuspeito para falar porque tenho, obviamente, meus momentos de desilusão com o jornalismo ( e de abatimento profissional).

    Sempre me lembro de uma história que meu guru Joel Silveira, tido como o maior repórter brasileiro, gostava de contar. Uma vez, estava datilografando furiosamente um texto numa máquina de escrever,na redação.

    De repente, Nélson Rodrigues estacionou diante de Joel e ficou contemplando a cena em silêncio durante um bom tempo: lá estava um jornalista escrevendo um mero texto de jornal como se fosse mudar o destino da humanidade. Nélson Rodrigues limitou-se a suspirar uma palavra, antes de seguir adiante: “Patético!”.

    Joel – com quem tive o privilégio de conviver durante vinte anos que valeram por cinquenta de aprendizado – ria ao descrever esta cena. Poderia até concordar com o que Nélson Rodrigues dizia – em última instância,somos todos “patéticos” – ,mas continuava a teclar devotadamente um texto que estaria esquecido vinte e quatro horas depois. O que importava, ali, não era a transitoriedade do Jornalismo. Era a devoção – um traço que, aliás, diferencia um jornalista burocrático de um jornalista “de verdade”. Não se faz Jornalismo com tédio. Faz-se com devoção. Jornalista existe para levantar – não para derrubar – assuntos. Ponto.

    Sou um dos piores oradores que já tiveram a ventura de transitar pelo Cone Sul da América. Ainda assim, arrisquei-me a dizer umas palavras ao receber o Prêmio Embratel de telejornalismo.

    Como sempre acontece quando me vejo diante de qualquer plateia, terminei me esquecendo de metade do que gostaria de dizer.

    Agora, mando às favas todos os escrúpulos da auto-referência: é hora de falar um pouco sobre o Jornalismo.

    Sou um quase dinossauro. Tenho 54 anos. Comecei a trabalhar em redação aos dezesseis. Posso dizer que aprendi duas ou três coisas.

    Em homenagem aos colegas que suam a camisa, gastam sola de sapato na rua, atazanam os poderosos, levantam escândalos e,por fim, vibram quando são reconhecidos, publico o que tentei dizer mas não disse totalmente na hora da premiação.

    Era algo assim:

    “Toda atividade – seja qual for – precisa de um lema, uma bandeira, um slogan. O meu poderia ser qualquer outro, mas é : “Fazer jornalismo é produzir memória”. O jornalismo pode ser útil, então. Pode jogar luzes sobre o passado. Por que não? .

    É preciso ter convicção. Pois bem: posso estar errado, mas acredito que fazer jornalismo é olhar o mundo, os fatos, os personagens e as histórias com os olhos de uma criança que estivesse vendo tudo pela primeira vez; somente assim, o Jornalismo será vívido,interessante, inquieto – não este monstro burocrático,chato e cinzento que nos assusta tanto;

    fazer Jornalismo é saber que existirá sempre uma maneira atraente de contar o que se viu e ouviu;

    fazer Jornalismo é ter a certeza de que não existe assunto esgotado. Há fatos a explicar sobre 1964, por exemplo; tudo pode ser revirado: a crucificação de Jesus Cristo merece ser investigada. Por que não ? Jornalista não pode se deixar vencer pelo tédio destruidor – nunca;

    Se um estreante perguntasse, eu diria: deixe o tédio em casa. Traga a vida das ruas para a redação. Porque, em noventa e oito por cento dos casos, o que a gente vê na vida real é mais colorido e mais arrebatador do que o que se publica nos jornais ou o que se vê na TV;

    Diria também: não faça jornalismo para jornalista. Faça para o público!

    Fazer jornalismo é não praticar nunca,jamais,sob hipótese alguma, a patrulhagem ideológica. Ponto. Um general – seja quem for – deve ser ouvido com tanta atenção quanto o mais renitente dos guerrilheiros. Lugar de votar é na urna. Não é na redação;

    (eu disse ao general Newton Cruz: não quero parecer bom moço, jornalista vive procurando escândalo e declarações bombásticas, mas, como personagem jornalístico, o senhor me interessa tanto quanto Luís Carlos Prestes, a quem, aliás, entrevistei algumas vezes);

    Por fim: fazer jornalismo é desconfiar,sempre,sempre e sempre. A lição de um editor inglês vale para todos: toda vez que estiver ouvindo um personagem – seja ele um delegado de polícia, um praticante de ioga ou um astro da música – pergunte sempre a si mesmo, intimamente : por que será que estes bastardos estão mentindo para mim?

    Não existe pergunta melhor”.




    Do G1 Rio

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