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    segunda-feira, 25 de julho de 2016

    OPINIÃO| A Guerra Americana no Afeganistão

    Soldados americanos na guerra contra milícias talibãs, no Afeganistão.

    Embora não esteja mais recebendo tanta atenção da mídia ocidental, a guerra americana no Afeganistão continua, assim como continua a deplorável, longa e irremediável série de inexpugnáveis e hediondos atentados terroristas, que faz entre suas vítimas a parcela mais vulnerável da população: crianças, mulheres e idosos, que pagam com suas vidas inocentes o preço de uma guerra que nunca solicitaram, ou requereram participar. 

    Tendo como um de seus principais objetivos dizimar células terroristas, mais especificamente as do Taliban, e tentar, de uma vez por todas, suprimir, em caráter definitivo, a atuação da milícia, em uma resolução militar que visa eliminar, capturar ou aprisionar os seus integrantes, a guerra, que muito em breve completará vinte anos de existência, e que na verdade não é senão a espúria e virulenta continuação de uma longa guerra anterior, não vê no escopo de sua beligerante hostilidade nenhuma espécie de progresso ou conclusão, no que tange os acontecimentos enredados debaixo do seu amplo, mordaz e ambivalente horizonte de eventos. 
     Em anos recentes, o número de militares americanos presentes em território afegão vem drasticamente diminuindo.  

    O fato da OTAN – a Organização do Tratado do Atlântico Norte – ter drasticamente diminuído sua atuação em caráter oficial, transferindo responsabilidades para unidades militares americanas e forças de segurança afegãs, não parece ter sido nada além de mera formalidade, em virtude do fato de que suas tropas permaneceram ativas para muito além da data oficial de encerramento de suas atividades, fornecendo serviços de consultoria em segurança e contraterrorismo para as forças militares em operação. Não obstante, a presença de tropas americanas em território afegão parece estar diminuindo drasticamente, com um enorme número delas sendo convocadas a voltar para casa. 

    Um dos mais violentos episódios em território afegão ocorreu há quase dois meses, em 19 de abril, quando um caminhão carregado de explosivos, armado por agentes da milícia talibã, detonou próximo às dependências de um complexo do governo, ocasionando o que veio a ser classificado como o maior ataque terrorista da organização em território nacional, em quinze anos. Sessenta e quatro pessoas morreram, e trezentas e quarenta e sete ficaram feridas, em consequência do ataque. Tragédias dessa magnitude apontam de diversas maneiras como a presença americana em território afegão fez muito pouco para coibir ou evitar violentos ataques terroristas, durante uma década e meia de atividade militar na região, sendo este o mais longo conflito na história bélica dos Estados Unidos. 
    Considerado o 3º país no mundo com o maior número de atividades terroristas, o Afeganistão têm visto em anos recentes um envolvimento cada vez maior de mulheres ativas em milícias.
            
    Infelizmente, parece que as ofensivas militares são capazes de aumentar a frequência, e não de coibir ou eliminar, os ataques terroristas na região, que tornam-se cada vez mais recorrentes. Como seria de se esperar, as vítimas constantes de uma ingrata e fatalista guerra inclemente é sempre uma inocente e completamente despreparada população civil, que paga com a própria vida os ditames de brutalidade, ferocidade e covardia, das quais se revestem as absolutas reivindicações fundamentalistas dos militantes, que formam a base ideológica das ações terroristas, ocupadas em propagar o terror e disseminar o medo pelo país inteiro. Diversas localidades, como Peshawar, são alvos constantes de atentados, como o que ocorreu em uma igreja, em 22 de setembro de 2013, matando cento e vinte e sete pessoas, e ferindo aproximadamente duzentas e cinquenta. Pouco mais de um ano depois, também em Peshawar, em 16 de dezembro de 2014, sete militantes do Taliban invadiram uma escola pública, e realizaram um atentado que vitimou cento e quarenta e oito pessoas, dos quais cento e trinta e dois eram apenas crianças, no que veio a ser considerado o pior, mais violento e mortífero ataque terrorista a ocorrer em território paquistanês. 

    Com um histórico de violência preocupante, que não vê possibilidades de diminuição ou reversão, e que apenas leva mais desesperança a quem tem que conviver diariamente com a incerteza e com a possibilidade de tornar-se vítima de um atentado, o futuro do Paquistão é tão incerto e nebuloso hoje quanto sempre foi, ao longo de sua atribulada e turbulenta história moderna. Com uma presença cada vez menor, porém contínua, tropas americanas continuarão conduzindo operações aéreas, detectando localidades suspeitas, e deflagrando ataques surpresa a inimigos, que parecem cada vez mais atuantes e engajados, e que, à despeito da hostilidade e da resistência que encontram, simplesmente não diminuem ou cessam suas deploráveis e violentas atividades em prol de seus ideais fundamentalistas. 

    Outra questão muito importante diz respeito ao fato da guerra esconder um enorme número de interesses ocultos, que visam beneficiar diretamente os governos envolvidos. Embora muitos desconheçam este fato, 2016 marca 20 anos de presença americana no Afeganistão, o que torna o conflito neste país o mais longo da história militar dos Estados Unidos. Vendas de armas, aquisição de petróleo e minérios lucrativos, trocas intermitentes e malignas de favores, entre outros elementos da política internacional, maculam de forma grave interesses realmente nobres, que deveriam prezar e zelar pelo bem-estar da população, o que não acontece, nem jamais acontecerá na prática. 

    A horrenda odiosidade da guerra é uma das piores e mais irreversíveis mazelas do mundo contemporâneo. Enquanto interesses primariamente econômicos são a base principal desta equação, crianças, jovens, mulheres, idosos e recém-nascidos – ou seja, especialmente vulneráveis – acabam sendo as maiores vítimas de uma deplorável, sórdida, atroz e degradante chacina, cuja escala de mortandade cresce diariamente, de uma forma avassaladora e cada vez mais pior. 

    Infelizmente, essa é uma complexa e intrincada questão, aparentemente sem resolução. Assim como há vinte anos atrás seria impossível vislumbrar uma solução plausível para os conflitos no Paquistão, da mesma forma hoje, as atividades militares, a resistência das milícias e as atividades terroristas formam um inflexível panorama de beligerantes contendas e cruéis carnificinas, que infelizmente estão além de qualquer possibilidade de término, ou conclusão. A quem acompanha diariamente a apreensão e o drama de uma realidade terrivelmente assustadora, resta apenas a resignação. Se existe alguma maneira de manter viva a esperança, possivelmente é vivendo um dia de cada vez. O sofrimento, no entanto, jamais têm um dia de folga, e suas consequências sempre serão insensivelmente aterradoras, afinal, a malignidade e a voracidade da ganância humana sempre encontrarão meios de destituir e destruir ainda mais aquilo que já foi espoliado. Para quem já perdeu todas as expectativas de um possível futuro, e todas e quaisquer esperanças de forma definitiva, ter mais um dia de vida é um bônus no inconsistente saldo do imprevisível ciclo da carnificina. Não obstante, todo e qualquer dia a mais, para os que ficam abandonados à própria sorte na linha de fogo, é uma cruel, ignominiosa e brutal forma de suplício, e não uma possibilidade de redenção. 


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