Campo Grande (MS),

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    quinta-feira, 7 de julho de 2016

    LÍNGUA PORTUGUESA| Professor Fernando Marques



    Continuação do Capítulo “Dialogar”. 

    Expressões marcadas pela falta de clareza, como ainda ocorre no nosso sistema de saúde, mesmo onde a legislação coíbe com veemência esse absurdo, principalmente quando médicos usam caligrafia ilegível na prescrição de receitas, pedidos de exames, emissão de atestados, laudos, outros documentos, acontecem por negligencia ou por rebuscamento que caracterizam o preciosismo que irrita e que atrapalha a assimilação da mensagem.

    Tanto na forma escrita quanto na oral, há quem insista na utilização do preciosismo erudito que se atrela à esquisitice e às extravagâncias. 

    O “apaixonante” soneto do poeta maranhense Luís Lisboa, A UMA DEUSA, representa mais um exemplo de mensagem que foi contaminado pelo barbarismo caracterizado por preciosismo ou rebuscamento: 

    A UMA DEUSA

    "TU ÉS O QUELSO DO PENTAL GANÍRIO,
    SALTANDO AS RIMPAS DO FERMIM CALÉRIO,
    CARPINDO AS TAIPAS DO FUROR SALÍRIO
    NOS RÚBIOS CALOS DO PIJOM SIDÉRIO.

    ÉS A BARTÓLIA DO BOCAL EMPÍRIO
    QUE RUGE E PASSA NO FESTIM SITÉRIO,
    EM TICOTEIOS DE PARTANO ESTÍRIO,
    ROMPENDO AS GÂMBIAS DO HORTOMOGENÉRIO.

    TEUS LINDOS OLHOS TÊM BARLACANTES.
    SÃO CARMENCÚRIAS QUE CARQUEJAM LANTES
    NAS DURAS PÉLIAS DO PEGAL BALÔNIO.

    SÃO CARMENTÓRIOS DE UM CARCÊ METÁLIO,
    DE LÚRIAS PELES EM QUE PULSA OBÁLIO
    EM VERTIMBÁCEAS DO PENTAL PERÔNIO."

    Ainda como barbarismo, temos o plebeísmo que é manifestado pela pobreza vocabular da pessoa que, por esse motivo, utiliza de gírias e palavras e expressões vulgares nas suas formas de comunicação. Exemplos:

    Acho assim,
    Apagar (desmaiar)
    Arranjar treta,
    Bacana, legal (bom), 
    Capotar (cair, dormir)
    Cara (indivíduo), 
    Coroa (pessoa idosa), 
    Cuca (cabeça), 
    Curtir um som (ouvir música)
    Dá um rolê (passear)
    Então assim, 
    Entrar pelo cano (sair-se mal), 
    Grana (dinheiro), 
    O cana (o policial),
    Olha só,
    Rangar (comer),
    Se liga (entenda),
    Tipo (exemplo),
    Trocar ideia (falar, conversar),
    Troço (objeto, coisa), 
    Veja só. 

    O arcaísmos manifesta-se pela utilização de termos que caíram em desuso. Embora seja aceitável no meio rural, onde as pessoas usam as mesmas expressões quando se comunicam, entende-se que tal fato seja normal e que até mesmo contribua para a preservação de determinada forma de linguagem. Exemplos: 

    Adondi (aonde),
    Alcaide (prefeito), 
    Ceroula (cueca), 
    Cincoenta (cinquenta),
    Copiar (alpendre, vestíbulo), 
    Entonces (então),
    Escuita (escuta), 
    Magote (grande quantidade), 
    Nosocômio (hospital),
    Oiçu (ouço),
    Outrossim (também),
    Preguntei (perguntei),
    Quiçá (talvez),
    Soer (acostumar), 
    Vossa Mercê (Você),
    Vossa Suncê.

    Enquanto em alguns países lusófonos algumas palavras passaram para o barbarismo denominado de arcaísmo, no Brasil permanecem normais. 

    Há uma série de palavras que deixaram de ser utilizadas há muito tempo. Como exemplos, temos as formas verbais que são observadas somente nos livros de gramática, numa clara evidência de que os nossos educadores e nossos estudantes estão empenhados em estudos sobre palavras que, na prática, não terão utilidade. Exemplos: 

    Abrira (pretérito mais-que-perfeito do verbo abrir);
    Amara (pretérito mais-que-perfeito do verbo amar);
    Beijara (pretérito mais-que-perfeito do verbo beijar);
    Comera (pretérito mais-que-perfeito do verbo comer);
    Expondes (2ª pessoa do singular do presente);
    Expúnheis (2ª pessoa do plural do pretérito imperfeito);
    Fazes (2ª pessoa do singular do presente);
    Fazíeis (2ª pessoa do plural do pretérito imperfeito);
    Não processeis vós (2ª pessoa do plural do imperativo negativo);
    Traríeis (2ª pessoa do plural do futuro do pretérito);
    Vendei vós (2ª pessoa do plural do imperativo afirmativo);
    Vós cantáveis (2ª pessoa do plural do pretérito imperfeito);

    Também já são consideradas arcaicas Mesóclises utilizadas no futuro do presente e no futuro do pretérito. Exemplos:

    Far-se-á;
    Recorrer-se-ia.

    Da mesma forma, estão no já sistema arcaico expressões como:

    Venho por meio desta solicitar... (Solicito…);
    É com incomensurável e elevada estima que apresentamos... (Apresentamos...)
    Mui respeitosamente, apresento meus protestos de elevada estima e distintas considerações. 

    Um amigo gaúcho, de espeço bigode, lenço vermelho no pescoço, bombacha e botas afirmou:

    “Barbarismo é a minha ex cometer o crime de alienação parental quando diz aos nossos filhos que eu os abandonei e aos meus amigos que eu pedi ajoelhado para voltar para ela e ela não me quis, tchê!”


    Continuação na próxima semana.

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